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Crítica Literária por Miguel Real


UMA VOZ NOVA NO ROMANCE HISTÓRICO

2014-02-28

Anabela Natário, jornalista especializada em temas históricos e no universo feminino (seis livros com 177 biografias de mulheres e, em 2012, a publicação de 100 Portuguesas com História), fez sair recentemente o seu primeiro romance de grande expressão pública (em 2007, publicara uma primeira experiência ficcional interna ao circuito da internet): O Assassino do Aqueduto.

Uma belíssima estreia no campo do romance histórico quando o fulgor criativo deste género literário começa a empalidecer na segunda década do século. Recorde-se que na primeira década tinham emergido um leque de autores de grande qualidade, como Júlia Nery, Pedro Almeida Vieira, Paulo Moreiras, Ana Cristina Silva, João Paulo Oliveira Costa, Deana Barroqueiro, e outros, continuadores de João Aguiar, Fernando Campos, Sérgio Luís de Carvalho e Mário de Carvalho. Nesta segunda década, tínhamos tido a surpresa da leitura dos romances de João Pedro Marques, romancista igualmente de grande qualidade, e a tristeza de ver este género literário arrastado para um nível estilístico e de fundamentação histórica a beirar a mediocridade, praticado por autores que têm em vista mais as vendas do que a excelência da história e o rigor da fundamentação. Neste momento, o leitor deve precaver-se contra o romance histórico mediático, de capa multicolorida, que lhe é oferecido na estante das livrarias: a maioria não prima nem por uma objectividade factual nem por uma sintaxe criativa, mas apenas por um conhecimento superficial da vida de uma figura histórica e uma visão em segunda-mão (por vezes terceira ou quarta-mão) da atmosfera social e do tempo histórico que a envolvem.

É, assim, com prazer que se lê O Assassino do Aqueduto (título muito forte, mas realista), romance que narra a vida de Diogo Alves, o bandoleiro galego que, na década de 1830, assaltava os transeuntes do aqueduto das Águas Livres em Lisboa, roubando-os e atirando-os do alto, lançando-os numa morte certa. Do mesmo modo, sem piedade nem arrependimento, com o seu bando de malfeitores, assaltava casas matando a maioria dos seus inocentes habitantes.

O romance de Anabela Natário narra a história do assalto à casa do médico abastado da corte Pedro de Andrade, na Rua das Flores, e do assassínio de Elias, marinheiro, duas irmãs deste, Emília e Vicência, e sua mãe, Maria da Conceição, que o médico da corte acolhera por falência e morte do chefe de família, Correia Mourão. Servindo-se da cumplicidade de um criado de Pedro de Andrade, Manuel Alves, o bando de Diogo Alves, o “Pancada”, penetra na casa da Rua das Flores, devasta a casa, rouba dinheiro, prata e jóias e assassina os seus quatro habitantes. Mais tarde, Diogo Alves e João das Pedras, o Enterrador, assassinarão Manuel Alves sem misericórdia quando Diogo e Celeiro, seu companheiro e parente de Manuel Alves, presumem que este, angustiado e desorientado, pode vir a denunciar o bando. A devassa levada a cabo pelo juiz Carlos Bacelar, ajudado pelo informador taberneiro Calçada, findará com a descoberta dos autores do crime, do corpo de Manuel Alves enterrado artesanalmente e de parte da prata roubada, igualmente mal enterrada.

Um óptimo romance histórico, com um estilo próprio, que de certo modo o aproxima do de Saramago (longos parágrafos corridos cadenciados pela utilização da vírgula), mas igualmente do de Fernando Campos (descrição do pormenor: roupas, transportes, profissões, toponímia de Lisboa, conhecimento dos bairros e dos seus habitantes, linguajares típicos da ralé…), torna-se não só um prazer estético a sua leitura como, sobretudo, uma grande fonte de informação sobre os costumes sociais e políticos de Portugal após a Guerra Civil oitocentista entre Liberais e Absolutistas.

Ainda que violento, fortemente violento, O Assassino do Aqueduto contém personagens humanísticas igualmente fortes, como, de certo modo, Maria da Conceição, filha de Gertrudes, amante de Diogo, e, sobretudo, o menino “Cenourinha”, distribuidor de pão, que descobre o sinistro assassínio em casa de Pedro de Andrade. Do mesmo modo, as hesitações da rainha D. Maria relativas à pena de morte em Portugal e o seu encontro com o “Cenourinha” e a mãe deste constituem outros elementos fortemente humanos no interior de um romance realisticamente violento.

Parabéns à autora e bem-vinda ao grupo dos romancistas históricos portugueses.


O Assassino do Aqueduto,

Esfera dos Livros, 299 pp., 16 euros.

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