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Raízes - Miguel Real


A HERANÇA DE SARAMAGO

2013-10-21 00:00:00

Miguel Real
CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas
Europeias e Lusófonas da Faculdade de Letras de Lisboa

De um ponto de vista sintético, presumimos gozar hoje de um forte consenso que o legado de José Saramago para a literatura portuguesa se desdobra em seis contributos essenciais, divididos em dois conjuntos, um no plano extraliterário, outro no plano especificamente literário:

1. – Plano Extraliterário

1.1. – A literatura faz-se com ideias

Em época de fortíssima redução do homem a um ser empírico e uniformizado, sobrevalorizador do corpo e crente confessado do consumismo, limitando o romance ao estatuto de uma mera radiografia sentimental do presente, José Saramago, diferentemente, afirmou, desde Manual de Pintura e Caligrafia (1977), uma literatura de ideias, isto é, uma literatura que, como o ensaio, iluminando os grandes temas do presente à luz de um novo horizonte e de novas interpretações, nasce tanto para interrogar e duvidar quanto para esclarecer e afirmar. Neste sentido, a obra de José Saramago subverte o actual paradigma dominante da literatura, fundado na exploração do império do corpo e do sentimento, na pequenina história circunstancial, nas estruturas de mistério e suspense e na exploração sobre um presumido maravilhoso esotérico Os romances de José Saramago evidenciam uma literatura filosófica, questionadora dos grandes mitos, conceitos e categorias da nossa civilização, a Justiça e o Bem, o Sagrado e a Igreja, a História e a Verdade, o Poder e os Povos… Como o autor abundantemente declarou, Saramago escrevia romances "porque não sabia escrever ensaios", isto é, transpôs o espírito céptico e inquiridor do ensaio para o interior do romance.

1.2. – Intelectual empenhado

Consequência do ponto anterior, José Saramago não receou "descer à arena" e "sujar as mãos" (A. de Quental), tomando posição pública, como o fizeram os grandes intelectuais portugueses, de Gil Vicente e Sá de Miranda a Oliveira Martins e Agostinho das Silva. Neste sentido, José Saramago cria possuir a História um sentido transcendente superior aos meros jogos políticos e sociais circunstanciais, alimentador de uma justiça elevada que desembocaria na igualdade e solidariedade entre todos os homens e na prosperidade das nações, o que em geral se designa por sociedade "comunista", como Pe. António Vieira, envolvido numa espiritualidade cristã, e Fernando Pessoa, numa espiritualidade esotérica, mas animados do mesmo desejo, a designaram com o nome de "Quinto Império", e Natália Correia e Agostinho da Silva com a de "Idade do Espírito Santo". Desde a década de 90 que o "comunismo" de José Saramago era da ordem do coração e do sentimento, mais expressão do desejo de aniquilação definitiva da pobreza, da desigualdade e da injustiça, elevando o homem a senhor da História, do que manifestação de uma ideologia política bem precisa. Como escreveu no Memorial do Convento: "A humanidade só será feliz quando todos os homens forem reis e rainhas todas as mulheres".

1.3. – A internacionalização da literatura portuguesa

Deve-se à obra de José Saramago o arranque da internacionalização da literatura portuguesa a partir de meados da década de 80, consolidado na década seguinte com a atribuição do Prémio Nobel. Com efeito, tanto por um efeito de arrastamento quanto pela qualidade intrínseca da obra dos novos romancistas, o romance português internacionalizou-se, conquistando o espaço europeu e brasileiro. Não é de menor valia esta característica externa do romance português, já que, em retorno – como causa que também é consequência e consequência que é igualmente causa -, os conteúdos internos (espaço geográfico e social, nacionalidade, identidade e psicologia das personagens, intriga motora da acção) se internacionalizaram do mesmo modo, tornando-se efeitos de um puro cosmopolitismo urbano. Neste sentido, a superior característica nova dos actuais romances portugueses consiste justamente no seu cosmopolitismo, ou, dito de outro modo, não são escritos exclusivamente para o público português com fundamento na realidade nacional, mas, diferentemente, destinam-se a um público universal e a um leitor único, mundial, ecuménico. Eis a directa influência da obra de José Saramago nos novos romancistas portuguesas, não a do estilo, do vocabulário, da estrutura morfossintática, da concepção geral da narração, tão singulares que se tornam em absoluto irrepetíveis, mas a de se constituir como nome emblemático da literatura portuguesa para a edição internacional, abrindo novas portas aos novos autores.

2. – Plano Literário

2.1. – Concepção geral de romance

José Saramago impôs à literatura portuguesa uma nova e revolucionária concepção de romance – por um lado, desconstrutivista, tecido de mil episódios narrados fragmentariamente, como se se tratasse de uma visão pós-moderna da literatura; por outro, integra estes episódios numa "grande narrativa". Dito de outro modo, Saramago usa no mesmo texto tanto as categorias clássicas do romance quanto as subverte.
Se, por um lado, destrói a cronologia, afirmando que "o tempo é todo um", permitindo-se fundir na descrição de uma cena o passado e o presente, e, por vezes, o futuro, não ao modo do romance psicológico (J. Austen, W. Wolf, M. Proust, J. Régio), mas social e historicamente, derrubando a distinção absoluta entre as figuras da analepse e da prolepse; por outro, respeita o tradicionalismo da narrativa clássica de uma história com princípio, meio e fim, narrando-a ao modo antigo. Por um lado, afirma o uso vernacular da linguagem (o resgate da utilização do "cujo", por exemplo; o respeito pela etimologia de palavras eruditas, por exemplo); por outro, integra o léxico num autêntico fogo de artifício semântico de horizonte barroco, muito próximo de uma visão pós-moderna da literatura, na qual as palavras fluem por si, desprovidas de imediato referencial. Por um lado, subverte radicalmente o emprego do modo tradicional da sinalética morfológica; por outro, respeita o seu sentido (discursos directo e indirecto bem delimitados no todo da narração, sem confusão alguma).
Assim, a complexidade estrutural da sua obra prova que para se conquistar o apreço do leitor não é necessário rebaixar o estatuto do romance a uma narrativa sentimentalona de folhetim telenovelesco, encostada à ignorância passiva do leitor.

2.2. – O estatuto do Narrador

José Saramago, numa viva polémica com Manuel Frias Martins, declarou a não existência de narrador nas suas obras, apenas aqui vivia, sob cada palavra, o autor. Porém, aceitando a existência deste, como decretam as novas análises textuais, mesmo assim a sua obra subverte totalmente o estatuto do narrador, estilhaçando as diversas modalidades por que este é habitualmente classificado. O narrador dos livros de Saramago é "tudo de todas as maneiras": simultaneamente exterior e interior, ausente e participante, majestático e empenhado, individual e colectivo, reflexivo e descritivo, memorialístico e actual… De certo modo, o narrador identifica-se com uma espécie de cruzamento teórico e prático entre vox populi, vox Dei e a consciência moral individual (o "daimon" socrático) do autor, o que lhe permite (ao narrador) tanto descrever o acontecimento quanto julgá-lo, quanto, ainda, inscrevê-lo numa ordem histórica em direcção a um futuro prenunciado. De certo modo, o narrador de José Saramago tanto é eivado de um certo domínio do tempo, na ordem da estrutura e da necessidade (o determinismo), quanto a ele se submete no domínio da conjuntura e da contingência (o probabilismo, por vezes elevado, na sua obra, ao especiosismo labiríntico do pormenor).

2.3. – O estilo

Em 1980, aquando da publicação de Levantado do Chão, e, logo a seguir, em 82, com Memorial do Convento, não existia passado para o novo estilo de José Saramago, tendo causado um absoluto espanto entre os leitores, que liminarmente o recusavam ou com ele se deleitavam. É um estilo simultaneamente trabalhado e espontâneo a cada momento, oral, coloquial (dialoga com o leitor), soltando as palavras, deixando-as seguir segundo um curso conotativo e a uma fluência semântica, uma espécie de cantilena, de melopeia, quase uma toada, animada de um fluxo lexical caudaloso, torrencial, por vezes vertiginoso, que projecta a totalidade da história na síntese de uma frase, conferindo a esta um peso ontológico determinante, dramático, não raro trágico, para logo de seguida acompanhá-la de observações de quem, jocoso e paródico, nada leva a sério, jogando magistralmente com a ironia, funcionando com paralelismos e antíteses pronunciados, divertindo-se com as palavras, num sentido menos cultista e mais conceptista (exactamente como a prosa de Pe. A. Vieira), explodindo em longos períodos de apuramento barroco, como uma catedral de palavras, menos num sentido grave, como se criasse aforismos sintetizadores do mundo (Agustina), e mais num sentido lúdico-sentencial, representando o mundo por via de contrastes racionalmente proporcionados (ao contrário da prosa de A. Lobo Antunes, que se alimenta da representação desproporcional ou desarmónica), gerando superiores harmonias espirituais na consciência do leitor. Sobre o todo do estilo, coexiste, como uma sombra branca nobre, um pronunciado lirismo, acompanhado, nos seus primeiros romances, até Ensaio sobre a Cegueira (1995), de um evidente optimismo histórico, e, desde então, de um fortíssimo pessimismo e cepticismo.

Finalmente, o discurso literário de José Saramago revela, não a fragmentação, a plurifacetação perspectivista do discurso, a disseminação do poder em poderes (atributos do pós-modernismo), nem a subsumpção de um discurso ficcional na ideologia pessoal do autor (neo-realismo), mas, diferentemente, comandadas por uma visão transcendente da História, ao modo de Pe. António Viera e F. Pessoa, a tentativa de instauração paradigmática de uma nova cultura, uma nova sociedade e o estabelecimento de uma outra forma de Poder, tripla subversão dos paradigmas mentais reitores da Civilização Ocidental. O fortíssimo conflito de José Saramago com a Igreja, poderosa guardiã máxima do passado da nossa Civilização, inscreve-se justamente neste horizonte histórico. Todas as análises à obra de Saramago, por mais brilhantes que sejam, que não tenham em conta aqueles três grandes sentidos sociais e civilizacionais ínsitos nos seus romances, não deixarão de pecar por defeito.

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