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Raízes - Mário de Carvalho


LITERATURA E LIBERDADE

2014-02-17 00:00:00

Talvez um dos efeitos mais nobres da literatura (como da arte em geral) seja o de libertar os seus leitores do acanhado espaço em que foram aprisionados. A reiteração da propaganda que, com as superstições dum capitalismo desenfreado inculca um modo de ser, um modo de estar, um modo de olhar, um modo de reconhecer e um modo de exprimir, acabou por enclausurar as almas. O propósito é dispô-las para aceitar – e considerar natural – o domínio de muito poucos sobre muitos. Noam Chomsky diz em qualquer lado que a propaganda está para as democracias como o cacete para as ditaduras. Convém acrescentar que não se trata apenas da propaganda política. Trata-se do condicionamento das atitudes e do próprio estar social. O espírito crítico é relegado para a quota das excentricidades ou para as nuvens das academias.

Querem exemplos concretos? Escrevo no chamado dia de São Valentim. Esse Santo e essa festa não têm qualquer tradição em Portugal. E, no entanto, aí temos os espectadores das televisões (estádios de Nuremberg dos nossos dias) a cumprir os rituais de florinhas e jantarinhos que lhes vêm sendo impostos. E até parece (os próprios estão convencidos) que foram livres de decidir. As pessoas que consideram estas festas e estes comportamentos como servis e pindéricos são olhadas como pseudo-intelectuais (designação historicamente afascistada).

Na maior parte dos cinemas vemos espectadores com baldes descomunais cheios de milho frito, vulgo «pipocas». E vai pelas salas escuras um rilhar de dentes e um tasquinhar de cuspinheira que dá um toque de inferioridade. Para não falar no cheiro oleoso.

Não havia nenhuma tradição de trincadeira nos cinemas. Foi um hábito importado. Livremente copiado, por opção dos cidadãos? Não, foi instalado pela máquina de uniformização que impregnou os espíritos e repeliu as vontades.

Ler, sair desta camisa-de-forças, procurar outros horizontes, diversos dos que são impostos, andar por outros mundos, interpelá-los, interrogá-los, criticá-los, usando uma linguagem mais elaborada, variada e rica de matizes. Talvez a literatura possa ter este efeito de alforria.

MdC

14-02-2014.

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