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Raízes - João de Melo


As Velhas Senhoras

2016-03-07

 

Conto de João de Melo
Livro: «Os Navios da Noite»

Venho encontrar o país na mais funda lástima. Triste como os olhos, como os rostos, como estas vozes portuguesas que agora passam por mim, pela minha sombra ainda ausente ou desconhecida da sua memória, e pela inexistência do meu ser nas suas vidas. Lastimam-no as velhas senhoras que vão e vêm das compras nas lojas e nos mercados do bairro e que se cruzam ou encontram no passeio à esquina da minha rua. Falam do custo incomportável das coisas, do preço da vida, das doenças e desavenças de família, da insignificância das suas reformas. Mulheres aparentemente tranquilas com vozes chorosas. Tremem-lhes os dedos, os olhos, a boca. Qual animal faminto e assanhado, o mundo gira em redor delas, das velhas senhoras que, por pura obra do instinto, apertam os porta-moedas entalados nos sovacos ou entre os dedos nervosos. Ao olharem em volta, dão logo um passo atrás, precavendo-se por instinto contra os homens que passam por elas: unem-se umas às outras como as ovelhas assustadas à vista dos cães. Receiam ser roubadas pelos mendigos que agora enxameiam toda a cidade: vadios, sujos e desgrenhados arrumadores de carros que pedem uma ajuda para comer e que elas confundem com os infames drogados, essa gente desempregada dos países de Leste, pessoas indignas, talvez ultrajadas pelo mundo sem graça em que nascemos. Mas esses desprezados preferem viver na rua, de mão estendida à esmola, do que trabalhar e sofrer com honra, como os queridos filhos e os pobres homens que madrugam para chegar a tempo ao primeiro transporte público do dia, ao estaleiro da obra, a empregos secretos de que ninguém fala nem quer para a vida inteira.

Falam no ponto de encontro das ruas do bairro, num momento de pausa dos seus contínuos afazeres em casa, de pé, numa pequena roda mas à grande esquina do mundo. É aí que ele, mundo, se desdobra como se fosse um mapa e fica a descoberto. Podem então olhá-lo de norte a sul. Vendo dali todo o bairro onde moram, é como se vislumbrassem o país inteiro. Quem vê um país, como elas julgam vê-lo agora, sabe o que vai no planeta em matéria de luxo e de pobreza. Mais coisa menos coisa, tudo igual em toda a parte. Dizem-no elas, velhas mulheres de uma cidade em estado de agonia. No tempo do meu regresso a Portugal.

Vão-se dali carregadas com as compras. Entram em prédios antigos, sem elevadores. Sobem lanços de escadas com degraus que rangem ao peso dos corpos. Movem-se lentas, suadas, parando nos patamares para recuperar o fôlego. Quando chegam ao cimo, parecem exaustas. Não param logo de arfar. Precisam de ir à janela e abri-la de par em par, apesar do frio, só o tempo de tomarem um pouco de ar e reaverem o domínio sobre o coração acelerado e a respiração demasiado apressada. Precisam de descansar as pernas doridas. Ligam a televisão para se distanciarem da realidade das ruas e poderem recuperar das tremuras que lhes retiram firmeza aos joelhos. E então lá estão eles, outra vez eles, sempre os mesmos, os profetas da crise, dias e noites sentados nos programas de entrevistas, comentários, mesas-redondas, para debates ou simples opiniões, sob os mais variados pretextos. São os senhores economistas. Tal como ontem e anteontem, disputam entre si dados e razões, os seus queridos números, as perdas e os danos, os males crónicos do país, sem esquecer as suas profecias acerca do futuro do continente e do mundo.

Ágeis como felinos na sua selva de enganos; tão leves como os mosquitos que pululam à superfície dos lagos e pousam de flor em flor na copa dos nenúfares. Falam melhor do que ninguém, é certo. Eis os ferozes analistas de uma culpa universal que só os outros, nunca eles, devem assumir. Os economistas são os únicos isentos de pecados. Nem venais, nem veniais. Eles fizeram estudos, diagnósticos, projecções numéricas: mostram gráficos com barras atravessadas por uma linha sinuosa que mais parece uma víbora, ora azul, ora vermelha, a rastejar por ali fora, indo de barra em barra, subindo e descendo na vertical do papel quadriculado e dos algarismos. Cai a cobra lá das alturas, ou ergue a cabeça percentual a predizer os cenários da morte económica. Não haja dúvida, tudo está deveras mal em nós. Sempre esteve. Nada e ninguém escapará às duras penas eternas desse inferno. Vem já aí a perdição. A culpa recai, inteira, sobre os que ficam do lado de fora do ecrã. Eles, os economistas, bem se cansaram de avisar os políticos, o país, o povo em geral. Mas nunca ninguém lhes deu ouvidos. Há que exorcizar o erro, varrer os vícios, a falta de vontade desta gente para vencer e ultrapassar a crise. Quando não, ela entrará terra dentro, como um mar eivado de fogo, com a falência total das empresas e a ruína sem glória das famílias portuguesas. E é certo e sabido que o mundo se acaba. Virão os bárbaros disfarçados de credores, atravessando as fronteiras, batendo às portas, entrando nem que seja pela janelinha do sótão ou pelo telhado. Levarão outra vez consigo os rios e os mares; as paisagens, as estradas, os navios acesos da noite, os aviões. Deitarão fogo às casas e aos montes. Arderá a própria terra minada pelo lume vingador, em fogo e brasa. Nada poderemos fazer contra eles.

É assim que as velhas senhoras imaginam o seu próprio apocalipse: as chamas nas vestes que trazem justas ao corpo; nas camas onde foram amadas pelos seus homens na idade do amor; nas máquinas da roupa e da loiça, nos trens de cozinha. Nuvens a desabarem sobre a cidade, sobre o excesso de luz dos dias, sobre a família toda aos gritos, uns dentro e outros por cima dos gritos delas, e já ninguém terá a força de mãos nem qualquer poder humano de as apaziguar. Dão por si amedrontadas pelos cantos, de mãos postas, a rezar e a clamar por perdão e misericórdia. Outras querem erguer-se do sofá e apagar a televisão, fugir de casa, sair de braços erguidos como quem se rende aos exércitos invasores que decerto as esperam já em plena rua para as levarem consigo. Mas não podem mover-se sequer de onde permanecem sentadas, tolhidas a meio do gesto de quem vai para levantar-se, tal a veemência, a ira, a censura e a profecia da destruição na voz enraivecida dos senhores economistas. Homens zangados com os descaminhos e as perdições do país.

Angustiadas, as velhas senhoras ficam só mais um momento a ouvi-los, na esperança de que lhes passe tão severa zanga contra elas, e haja enfim uma pequena trégua nessa sua cólera televisiva. Em vão. Porque eles insistem: tudo continua errado, piores males estão ainda para chegar à economia e ao povo. Ninguém se atreva a dizer o contrário do que eles pensam, nem a falar na esperança de uma redenção patriótica. Nenhuma geração poderá salvar-se, pois o mal existe e passará de pais a filhos e de filhos a netos. Pelo século dos séculos, até ao fim dos tempos.

Ei-las por fim a chorar. Choram lágrimas gordas, brilhantes como berlindes. Foi-lhes inculcado um imenso remorso: o seu país está doente de morte porque elas deram de comer e de beber aos filhos e aos maridos. É um país doente das modestas prendas que elas lhes deram pelo Natal e no dia de aniversário, país doente dos seus sonhos, dos singelos prazeres familiares, das coisas lá de casa que tiveram de ser importadas dos países estrangeiros. E por tudo isso elas choram, choram, choram.

Talvez não devessem ter ousado tanto nas prendas e nas compras dos últimos saldos de Inverno. As luvas, os gorros, os cachecóis, as botinhas de lã para os netos. O casaco mais aprimorado e mais quente, para o frio: uma prenda de anos há muito esperada em silêncio pelo tão querido filho da sua alma. Um peixinho fresco ao fim-de-semana, ou uma carne mais apurada no prato do marido, ao menos uma vez por mês para aguentar com os trabalhos na obra. Talvez não fosse assim tão necessário elas terem comprado para si, às ciganas, o colar de pérolas muito bem fingidas e com brincos a condizer, nem o camisolão de lã que afinal não presta muito para os dias mais frios. O país não estava em condições de lhes dar o luxo de uma ilusão de beleza nem de conforto interior. Havia, desde que o mundo é mundo, um preço para as peças de origem e outro para as coisas falsas e para as imaginações da realidade que ainda se podiam ir comprando. Mas o tempo não estava para distinções entre a mentira e a verdade dos gostos de cada um.

Tudo aponta aos olhos e aos corações amargurados das velhas senhoras, culpadas dos seus enganos. Isso enche-as de novos remorsos e sentimentos de pecado mortal contra a crise. Porque tinham contribuído, mesmo sem querer, para a penúria e para a perdição do seu país, e ninguém ia decerto perdoar-lhes tal infidelidade à família, ao povo e até ao Deus Senhor dos Céus. Quem sabe se não viriam outra vez os mouros ou os espanhóis para reconquistar Portugal aos portugueses e levar tudo de volta com eles – além do mar e dos aviões, as obras de arte guardadas nos museus, as estátuas que se ergueram ao centro das praças históricas, as florestas e os campos mais férteis, quem sabe! É sabido que tanto os mouros como os espanhóis nunca foram gente de fiar. Muito pelo contrário, criaturas capazes das piores vinganças e das mais cruéis formas de escravidão. Tudo vinha escrito nos livros de História e Geografia por que estudaram na instrução primária, tantos anos atrás. Nem elas sabem dizer há quanto tempo acabou a escola e todas perderam de vez a sua infância.

Há um momento em que pensam ter motivo para se indignarem contra esses homens graves, sentados lá dentro nos estúdios da televisão. É quando têm o pressentimento, e logo a seguir a suspeita, e por fim a certeza de conhecerem alguns dos rostos. Dois deles são pelo menos tão idosos como elas. Mas há um terceiro que fala por detrás de um sorriso hábil e perfeito. Demasiado jovem em comparação com os outros, tem uma cara inequívoca de filho único. E uma lábia, uma pose segura e irónica de vencedor. Terá, sem dúvida, um emprego de alta responsabilidade numa empresa multinacional e um salário ao nível da administração. Traz em si, consigo, a alegria e o orgulho tranquilo dos pais. Estranho é que, sendo tão novo, talvez discípulo dos outros, ele os apoie tanto e aplauda a sua ideia de como pôr fim e de receitar a solução da crise; e que seja por vezes mais radical nos dados, nos termos, nas acusações, nos argumentos que evoca. Concorda com os demais quando dizem ser urgente fazer todos os sacrifícios, despedir gente e mais gente, cortar drasticamente nos salários, vender os serviços do Estado um por um, até já quase não haver Estado, e obrigar o povo a trabalhar mais e mais e a comer menos. Sinal de que também para a geração dele o país está gordo, doente, perdido, sem remédio. Ouvindo-o, os outros dois sorriem-lhe de lado e à vez, seus mestres e obreiros babados, a passarem-lhe a pública certidão da fidelidade às aulas e aos livros – um à esquerda, outro à direita do moderador de serviço (cuja cara de cavalo parece também sedenta: ávida e deliciada, a boca quase lhe saliva com a tragédia portuguesa, assim tão bem descrita no seu programa de televisão!). Possuem rostos compridos, os dois calvos, com grandes orelhas espetadas para fora dos crânios e bocas impassíveis – às vezes ácidas quando predizem os piores cenários para Portugal. Um deles vê-se que é um homem doente, por causa da cor seráfica das fontes e da boca verde; o outro usa uma barbicha rala e cultiva um tique, já ritualizado, que consiste em unir os lábios em bico e em fazê-los fremir como um pássaro a beber de uma pia de fontanário.

Muitas das velhas senhoras, já um tanto desmemoriadas, não serão capazes de garantir quem eles são, se os reconhecem ou não da cena política do país. Outras há que não conseguem iludir um sentimento de ódio e desdém contra esses obstinados que apregoam a passagem sem remédio da pobreza à miséria, e desta à bancarrota, e desta à perda da independência histórica do país. Sabem que ambos pertencem à tribo dos renegados da política: o que tem cara de doente fora em tempos ministro das Finanças e decretara a venda do ouro e a penhora do mar, da terra e dos rios aos americanos; o outro, o do tique nervoso, nenhuma delas sabe nem se lembra de como se chama. Ou talvez haja uma ou outra que de repente se lembre dele e da sua figura: um político que já foi ministro, ou algo de parecido, de certeza segura, porque não há nada de mais patético na vida do que um ex-ministro despeitado, e é essa agora a máscara que ele tem. Não se lembram de que coisas foi ele ministro, nem há quanto tempo isso aconteceu; mas é ele quem de repente o diz de forma eufemística, ao comparar a situação presente com aquela que deixou no tempo em que “teve a honra” de integrar um dos inumeráveis governos patrióticos que haviam guiado os passos do país pela mão, como se faz a um cego ou a uma criança perdida no escuro de uma casa desconhecida. Não há memória pública nem privada da sua obra política. Só Deus terá um dia em paz a sua alma. Sendo assim, não existe uma razão para que as velhas senhoras se sintam obrigadas a comungar da mágoa geral que vai pelo país, de cima a baixo. Basta apontarem o dedo aos calvos e ao discípulo de ambos, e acusarem-nos de falso alarme, de uma histeria sádica que não convém ao povo mas que serve de comédia de enganos aos bancos, às companhias de seguros e a todos os cúmplices estrangeiros da nossa destruição. As senhoras podem, por fim, respirar um pouco, com uma sensação de alívio: acabaram de identificar os hipócritas e os culpados. Já podem dividir a culpa com alguém, sentirem-se como se absolvidas depois da confissão e do arrependimento. Podem devolver o amor às casas, à família inteira e à pátria, agradecer o facto de ainda possuírem escrúpulos na consciência e um sentimento de fidelidade a tudo e a todos quantos os senhores economistas se obstinam em censurar nas suas análises televisivas.

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