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Raízes - Lídia Jorge


DAMA POLACA VOANDO EM LIMUSINE PRETA

2016-04-08

Pior do que uma limusine preta, só mesmo uma limusine branca. Era preta e bem preta aquela que me esperava à porta do hotel em vez do táxi aprazado dois dias antes da viagem. A princípio resisti com veemência.
Nunca me tinha imaginado sentada em semelhante tipo de viatura. O veículo que me fora destinado fazia parte da galeria dos meus sonhos repelentes, no que em matéria de extravagância e futilidade dizia respeito.
Aparato de ricos passadistas, espavento desorbitado de artistas enlouquecidos nos fornos do glamour e nos púlpitos da fama. Semelhante carro oblongo, entre automóvel e carruagem, levava-me para o universo dos príncipes e das princesas de fancaria, tudo o que eu mais detestava nesse louco mundo. Limusines pretas para príncipes de lata, limusines brancas para cantores e trapezistas. Imagens reles da alma. Entrar naquele carro comprido que ali se encontrava estacionado, ocupando todo o espaço entre as duas colunas da portaria do West Road Hotel, parecia-me um absurdo. Jamais eu entraria naquele longo vaso, ainda que já passasse das quatro horas da manhã, o hotel fosse um edifício de periferiaperdido no meio de um descampado, e a distância entre aquela porta e o aeroporto contasse perto de duzentos quilómetros. Mesmo assim, eu não entraria naquele furgão ali estacionado, nem colocaria os meus pertences na mala daquele vagão com a tampa escancarada à espera de partir em viagem. De modo algum. Era preciso ser intransigente. Eu queria um táxi comum, um transporte normal para a minha mala comum, para o meu saco comum, a minha pessoa comum a quem apenas uma troca de horários de aviões obrigava a fazer aquela deslocação imprevista. Acontecesse o que acontecesse, eu não iria entrar naquele carro.

Mas o condutor encontrava-se junto ao recepcionista a apresentar a sua versão.

Segundo ele, eu podia tomar a limusine sem custo acrescido. Tratando-se de um percurso longo, seria muito mais cómodo viajar naquela viatura, e o cliente não teria de pagar quase nada pela diferença de porte.
Uma soma insignificante em face de um considerável acréscimo de comodidade. Porque se recusava a passageira a aceitar semelhante oferta? Na limusine não havia conta-quilómetros, mas tudo funcionava como num táxi, e ele até iria arredondar a conta. Segundo os seus cálculos, eu apenas teria de pagar uns vinte dólares como suplemento, mais para menos do que para mais.
E o motorista começou a falar em iídiche com o recepcionista, e o recepcionista não levantava a mão na direcção do telefone, e eu não dispunha de qualquer indicação de como chamar um táxi àquela hora a partir daquele local, com o homem da recepção a responder em iídiche, e o motorista a rir, ora em iídiche ora em inglês, a tentarem ambos demonstrar a vantagem que seria viajar naquele carro, ao longo de tantos quilómetros, àquela hora da madrugada, com a estrada fria e os campos gelados. Queria ou não queria? Os dois calados, a testarem a resistência da passageira. O que fazer, então?

Em semelhantes situações, adaptar-se a pessoa às circunstâncias configura a única solução viável. Por mais que me custasse, a rendição começava a desenhar-se como a última forma de ultrapassar o impasse. Era preciso capitular. E como capitular? Sem dizer uma palavra, entreguei a bagagem, entrei pela porta, o homem fechou-a, e estava decidido, eu viajaria então naquela carreta escura. Uma vez ali sentada, comecei a pensar nos motivos duvidosos que teriam feito aquele recepcionista chamar uma limusine em vez de um táxi para percorrer aquela distância. Melhor dizendo, quando todo aquele corpo tremendo arrancou, enchi-me de pensamentos judiciosos sobre o que imaginava serem os cálculos mesquinhos de quem conduzia a limusine através da estrada urbana, ao longo da qual ainda havia um renque de casas baixas, para logo se transformar numa fita larga desenhada a régua cujo fim e princípio se perdiam na planície gelada. O veículo enorme, o meu corpo nadando no assento, ocupando um espaço onde poderiam viajar doze. Desgostosa, ali ia eu, uma simples pessoa, uma criatura comum, falando sozinha.
Verdade seja dita que razão e fraqueza, quando unidas, não podem nada, como se demonstrara naquele impasse. Usando de inteligência, restava aproveitar o que sobejava da situação. Só que havia muito pouco para aproveitar. A limusine era antiga. De vez em quando, uma lâmpada de tejadilho iluminava aquele mórbido espaço, depois ia esmorecendo, para logo reacender e voltar ao princípio. Nessa intermitência, dava para perceber que os estofos estavam gastos e o tablier que se desdobrava num tabuleiro, que por sua vez avançava oferecendo copos e guardanapos, tinha riscas de brilho dourado, uma quinquilharia hollywoodesca que fazia cansar só de se saber que ainda ali existia. O rádio antigo e a zona do leitor de disquetes, simulando um antigo gira-discos, pareciam ter voado de um bar dos anos cinquenta para o interior daquele habitáculo, e havia ganchos onde pendurar casacos, dispositivos elevatórios onde repousar as pernas, e encostos para a cabeça onde o veludo rareava. Na frente, a conduzir aquele carro oblongo, ia a cabeça do motorista, uma auréola ampla de cabelo grisalho que se movia ao mínimo movimento dos braços.
No meio da auréola, uma coroa branca, a marca de uma calva com a forma delimitada de um círculo preciso. Mas a nuvem de cabelo cinzento moveu-se toda para um só lado, quando vários olhos encandeados brilharam na escuridão e o homem abriu a janela para gritar num inglês cruzado de iídiche – «Suas malvadas…» E falando para trás – «São raposasregressando ao amalho. Nunca se sabe quando estesanimais provocam um acidente na estrada.» Só depois o condutor disse qualquer coisa como – «Zenen zi a poylishe, Madam?» E depois perguntou – «A dama é polaca?»
Eu, polaca?

A pergunta era tão despropositada que a resposta não podia deixar de ser sóbria. O homem mergulhou no silêncio. A limusine deslizava rápida mas o seu ruído era baixo, o motor parecia inexistente. Mesmo assim, eu teria preferido um táxi, por mais ruidoso que fosse. E pensava de novo no logro em que havia caído, quando uns renques de casas surgiram e um cruzamento sinalizou a aproximação de um burgo. Orwickmill. Talvez uma vila, ou só um lugarejo, com sua bateria de polícia de estrada. O motorista abrandou, a luz acendeu-se, e eu vi a cara do homem muito nítida reflectida no espelho. O meu olhar cruzou-se com o olhar do homem. O homem disse de novo – «Desculpe, dir-se-ia que a
dama é polaca. O seu inglês parece polaco, o seu rosto polaco. A minha segunda mulher era polaca. Faleceu. A dama parece-se extraordinariamente com a minha mulher. Venho muito impressionado.»
«Pois lamento bastante» – disse eu.
O homem conduzia rápido mas, ou fosse do piso da estrada, ou fosse da mecânica daquele longo carro onde o meu corpo se perdia, a limusine parecia nem se deslocar, já que as únicas referências eram as bermas, tão baixas que se confundiam com a planura nevada, e as árvores mergulhadas no escuro nem ofereciam a comum ilusão de que se deslocavam à nossa passagem. Duas alas intermináveis, duas cortinas afastadas do movimento, sem movimento algum. Via-se pelo espelho que o homem também olhava para o exterior mas o seu pensamento parecia fixado num espaço diferente. «Ikh beyt akh, Madam, não lamente, não lamente nada» – ia ele dizendo, meio em inglês meio em iídiche. «Aí mesmo onde se encontra já se têm sentado algumas mulheres parecidas com ela, mas nunca uma que se lhe assemelhasse tanto quanto se assemelha a dama.» Remexeu no porta-luvas que tinha a profundidade de um cofre e uns brilhos de pandeireta espanhola, mas não encontrou o que pretendia.
«Que pena que não lha possa mostrar. Logo hoje, por acaso, não trouxe a fotografia. Se a tivesse trazido, poderia ver como a dama é parecida com ela. Mas não faz mal. Não lamente nada. E pensar que ela ia regressar à Polónia, e nós conhecemo-nos um dia antes. Foi numa agência de viagens de Telavive que nos conhecemos, falámos durante essa tarde e essa noite, e na manhã seguinte não viajou para a Warsava, como ela dizia. Não viajou. Assim ficámos durante cinco anos e meio. Foi um tempo extraordinário da minha vida. Dávamo-nos bem. Halina cuidou da plantação como se fosse uma camponesa e das minhas crianças como se fosse a mãe. Até que certa manhã, estava ela à porta da nossa casa, a preparar a bicicleta para se dirigir para a loja, quando um rocket vindo do lado de lá a atingiu pelas costas. Um engenho artesanal feito numa qualquer cozinha. Matou-a à porta da nossa casa, enquanto os meus filhos dormiam. Não lamente nada, dama. Não precisa. Acabei por vender o que tínhamos por atacado, o negócio da plantação e a casa, tudo quase dado, e viemos embora para o lado de cá. Mataram-na, assim, enviando um projéctil pelo ar, sem mais nem menos, compreende? A dama sabe, em qualquer parte do mundo onde se viva, há sempre dois tipos de cidadãos, os que enfeitam o céu com papagaios de papel, os que o enfeitam com rockets, e uns e outros sempre andam de mistura. Ela pertencia aos primeiros, mas foi vítima dos segundos. A dama perece-se com ela, mas ela era mais alta, mais loira e mais encorpada do que a dama. De resto, igual. Peço-lhe desculpa se lhe disser que era igual a si, mas mais bela…»

A estrada continuava a não ter curva nem cruzamento.
À retaguarda o escuro engolia-a como se fosse um poço, à frente, a neve desenhava duas linhas brancas iluminadas pelos raios de luz que galgavam sobre nada.

Diante daquela paisagem evanescente, o homem envolvia-se em cálculos sem fim. Contava em inglês sem iídiche – «Foi um grande desastre. A plantação, vendi-a ao desbarato. Pela casa, deram-me muito pouco, uns cem mil dólares, se tanto. Pela mobília, pouco mais de quinhentos sheqalim. Pela bicicleta que ficou intacta, só me deram quinze, pelos vasos de flores de que ela tão bem cuidava, não me deram nada. Uma grande ruína, um grande desastre, tive de atravessar os céus por cima do mar com os meus filhos e o mínimo indispensável. Aqui chegando, entre o que tinha e o que me emprestaram, foi possível comprar o primeiro táxi. Passados dez anos, tenho cinco táxis e esta limusine. É com a limusine que uma pessoa mais ganha, mas só ganha se nunca estiver parada. Nove passageiros é bom, um só é muito ruim, mas antes um só que nenhum. Este serviço feito a desoras, por exemplo, é pouco rentável. E logo se dá a coincidência de a dama que transporto comigo se parecer com ela de forma extraordinária. Venho impressionado…»
«Mas não lamente nada.»
«Please, ets darft zekh nit metsaer zan. Nada, absolutamente nada…»

O homem retirou uma das luvas e assoou-se ruidosamente.
A gaveta do tablier onde o homem guardava os lenços dançava cá e lá, entre frisos dourados meio desfeitos. Agora as copas dos abetos aproximavam-se da estrada, agora recuavam, agora desapareciam e outros permaneciam ao longe, completamente parados, a limusine sem ruído nenhum. «Por aqui, tanta terra desperdiçada…» – ia dizendo o homem. «Que injusta é a vida. E pensar que tudo aquilo que lá aconteceu foi por causa de dois palmos de terra. Eu gostava da terra, sabe?
Não quero mais terra. Dinheiro sim, para pessoas como nós, ele é a nossa única forma de possuirmos terra. Terra de fazer de conta, compreende? Só que a terra verdadeira fica debaixo dos pés, é coisa sólida, enquanto que o dinheiro escorrega das mãos e vai-se. Dinheiro é matéria que nunca está segura. Esta viatura, agora mesmo, encontra-se em bom estado, e multiplica, ainda que modestamente, o dinheiro que emprego na manutenção regular. Mas, amanhã, basta o arranjo inesperado de um farol qualquer, para voarem cinquenta dólares de uma só vez. Só me refiro a um arranjo, já nem falo de uma substituição. Agora imagine o que não foi refazer por completo o motor desta viatura. O motor primitivo era um bebedor de gasóleo. Mudei, passou a consumir um terço e agora veja que nem se sente o rodado.
Grande comodidade. Chauffage perfeita, lucro modesto, como já disse, mas algum lucro. O suficiente. Bem podia eu ter mudado de vida enquanto ela vivia. Nem voltou a Warsava, como ela dizia. Se tivéssemos vendido a terra e abalado os quatro para o lado de cá, como Halina desejava, ainda estaríamos todos vivos. Ah! Se tivéssemos, se tivéssemos. Ela era igualzinha à dama, apenas mais alta, um pouco mais encorpada, mais loira, os olhos mais claros. As maçãs subidas eram iguais, o jeito de encostar a cabeça na almofada, igual, venho impressionado.
Ela, no entanto, como já disse, desculpe, era muito mais bela…» E o homem assoou-se outra vez.

A estrada continuava a não ter nem curva nem cruzamento. Neve à esquerda, neve à direita, o roncar do vagão resumia-se a uma arranhadela no asfalto. O homem mexeu numa outra gaveta daquele formidável tablier onde parecia existir o mobiliário de um lar antigo em miniatura. Mexeu, remexeu, tocou em alguma coisa que produziu música, mas o som, muito baixo, saía de algum sítio que não a caixa ornamentada como se fosse para discos de vinil. Sob esse disfarce, havia ali uma geringonça que desencadeava a música. O homem voltou a remexer no tablier e o volume do som aumentou. Era um coro, por certo um coro popular, alguma coisa entre o heróico e o lírico, e naquela paisagem nevada e nocturna poderia ser uma boa toada para o condutor mas não a melhor para a passageira que ele transportava consigo.
«Incomoda-a?» – ainda perguntou. Não esperou pela resposta – «Sabe? É uma canção polaca.» E trauteou-a em iídiche. «Conta a história de um soldado que foi visitado no campo de batalha pela alma da sua amada. Dizem que é uma canção que existe em todos os países do mundo, com variações, claro. Umas vezes, a alma da rapariga levanta-se do nevoeiro. Outras, como nos países do deserto, levanta-se da areia, mas sempre vestida de noiva. Lá, na Polónia, a aparição surge da neve como se a amada estivesse viva, e o soldado não dá por nada, só sabe que ela morreu quando mais tarde regressa à aldeia, depois da batalha. Gosto muito desta história.
Incomoda-a? Sempre ouço esta canção sozinho, de triste que é, mas neste momento partilho-a consigo, de tal forma você se parece com ela. Muitas raparigas aí têm estado sentadas, que me lembram a Halina, mas nunca nenhuma como a dama…»
«Nunca, Ikh beyt akh, Madam…»

Uma brigada da polícia surgiu à beira da estrada, de novo as luzes se acenderam, se apagaram, a limusine sempre a deslizar. Ele disse ainda – «E pensar que se não nos tivéssemos encontrado naquela agência de viagens em Telavive, ela ainda estaria viva, lá no país onde habita a sua família, e para onde tencionava voltar no dia seguinte. Cidade de Warsava, como ela dizia.» De novo se fez silêncio, de novo a amplidão daquela terra plana tomou conta da limusine, a estrada tão recta que eu pensava que deslizávamos fora da terra, pois não se ouvia nem o gralhar do motor nem o chiar do rodado.
Tão-pouco a nuvem de penugem cinzenta, à volta da cabeça do condutor, se movia. Só a música, agora quase inaudível, arranhava o silêncio. E nisto uma luz surgiu ao fundo da estrada e era uma estação de serviço. A limusine perdeu velocidade, encostou junto às bombas, parou.

O homem assoou-se, saiu, dirigiu-se à estação de serviço, mas não entrou. Aliás, não parecia existir ninguém dentro daquela espécie de barracão mal iluminado.
Depois o homem desapareceu atrás da estação e eu fiquei à espera dentro do grande carro. Quando reapareceu, em torno do seu rosto formava-se uma nuvem de vapor de água. Plantado em frente da estação, a nuvem de vapor era mais visível do que o seu vulto. Ali estava o seu vulto, parecendo guardar a limusine com aquele bafo provocado pelo frio da madrugada, e o bafo fazia-lhe desaparecer a cabeça. Dava que pensar. Pela minha parte, razão e fraqueza juntas não somavam nada. Estaria, então, aquele homem ali parado a adorar a limusine?
Ou, pelo contrário, quereria ele abandonar a limusine? Quereria aquele homem, imóvel, a olhar para o vagão onde eu me encontrava sentada, ele mesmo desaparecer da Terra? Quereria, pelo contrário, que alguém mais desaparecesse? Ou quereria que alguém, que já não fosse da Terra, reaparecesse sentada na limusine preta?
E o meu coração tinha deixado de enviar mensagens ao corpo. Se ele enviasse mensagens correctas, talvez eu devesse simplesmente chamar o homem parado. A verdade é que eu nem sabia o seu nome, e por isso se abrisse a porta e corresse para o exterior, nem sequer poderia chamá-lo. E no entanto, ele estava ali, tão perto. Dez metros de distância nos separavam. Com a mão muito lenta, procurei fazer um sinal, indicando o relógio, batendo no mostrador, mas ou a mão não acertava no relógio, ou acertava e o homem lá fora não reagia. Se o relógio e a mão estavam tão perto do vidro da janela, como poderia aquele homem não ver o meu gesto? Se eu via o seu vulto imóvel, ali mesmo, diante da estação de serviço? Se o vulto continuava a olhar para a viatura, o que eu confirmava sempre que o fumo que o envolvia se dissipava, e o homem se movia? Então eu pensei que deveria tentar abrir a porta, já que ninguém surgia, nem polícia, nem gasolineiro, nem funcionário, não havia vivalma em redor da limusine nem do vulto parado, com uma auréola de fumo indo e vindo em torno do seu rosto. Estou morta, pensei. Não, não posso estar morta, pensei. Se não estou morta, talvez eu devesse contar o meu dinheiro, contá-lo antes de sair para a estrada e entregá-lo a alguém que me fizesse voltar de novo à vida. Ou por outra, com a carteira junto do coração, talvez conseguisse abrir a porta e dirigir-me ao próprio vulto, entregando todo o meu dinheiro para que me fizesse avançar na estrada em direcção ao meu destino, ou recuar para o hotel onde alguém haveria de me socorrer. Um golpe de realidade fustigava-me o peito. Aquele homem não amava ninguém, aquele homem só fazia contas, só pensava em dinheiro, eu tinha sido apanhada numa armadilha que só poderia ter duas finalidades, ou a minha morte, ou o meu dinheiro. Dinheiro, eu tinha pouco, e o homem deveria pressenti-lo, enquanto a minha vida renderia por certo uma aventura de morte para quem alimentasse semelhante vício. Eu ainda estava viva e alguém que me quisesse matar poderia pagar àquele homem que me havia conduzido até àquele lugar incrível, e ele ganharia o seu dinheiro. Era esse, por certo, o seu negócio. Atrair mulheres para dentro da limusine e fazê-las desaparecer, em conluio com o recepcionista do West Road Hotel. Por certo que faltava surgir ali, naquele descampado tenebroso, a terceira figura, a que perpetraria o crime, enchendo de notas a algibeira do casacão do condutor que só falava em contas e dinheiro. Ele próprio não deveria ter deixado morrer a segunda mulher, possivelmente, ele tê-la-ia vendido. Eu precisava de abrir a porta, sair, suspender aquele deslizar silencioso na direcção do abismo. Consegui abrir a porta. A frieza do exterior bateu-me no rosto, fiz alguns passos na direcção do condutor transformado em vulto, o vulto começou a caminhar ao meu encontro, o vulto já perto, consultou o relógio, e ouvi-o murmurar, meio em inglês, meio em iídiche – «Calma, ainda temos muito tempo. Estamos com mais de meia hora de avanço. Entre rápido, estamos abaixo dos quinze graus. Kimt aran, bit, bit. Entre, por favor.»
E eu entrei de novo na limusine preta.

A limusine começou a avançar e um halo de manhã surgia no espaço oriental do continente, o espaço para onde nos dirigíamos. Carros começavam a correr nos dois sentidos, a neve surgia de um lado e de outro como se rasgássemos prata. Aves começavam a passar em bandos, o rumor do aeroporto desenhava-se nas tabuletas com a indicação do nome da cidade e do lugar, Baltimore Harbour ficaria ainda mais a nascente, e o homem não falava, só o seu cabelo de onde em onde ondulava, uma nuvem cinzenta que se movia e, no meio, a coroa clara, mais nada. O homem olhava pelo espelho retrovisor mas tinha deixado de comentar a sua vida. Uma gratidão sem limites por não estar morta levava-me a querer agradecer sem saber como. Pagar, era o que eu pensava.
Pagar, pagar, e folheava as cinco notas que me sobejavam. Sim, talvez eu pudesse dar-lhe todo o dinheiro que me restava, talvez o homem quisesse isso mesmo, pouco que fosse. Levava ali o meu resgate. Pagaria o trajecto e pagaria o meu resgate. E de novo pensamentos mesquinhos, sobre pensamentos mesquinhos, que eu deduzia e retorcia no labirinto da exaltação, assaltavam-me a capacidade de compreensão dos factos. A limusine avançava na direcção do cais do aeroporto. O homem saiu da limusine, abriu a grande porta da grande mala, retirou a minha bagagem, correu a ir buscar um carro de empurrar, colocou-a em cima da grelha, e eu pensei que não tinha o suficiente para lhe pagar. Imaginei-o a contar as cinco notas, decepcionado, e eu a prometer enviar mais tarde o resto do resgate. A estupidez, quando aliada à imaginação, perigosamente, alimenta seres selvagens que nos prendem ao solo e nos deixam sozinhos no meio da sombra. Até ali eu não tinha compreendido nada.

Continuava sem compreender.

O condutor da limusine disse alguma coisa como, irtsult nisht gurnischt, madam, e sacudiu a cabeça. Abri a minha carteira onde por certo não havia o suficiente para saldar o meu resgate. Uma parte renitente do entendimento continuava a dizer-me que aquele homem só fazia contas e, sempre que podia, assaltava pessoas na estrada. Algumas tinham a sorte de atingir o aeroporto, tal como eu. A estupidez, feita rainha, comandava os meus passos e fazia dos meus pressupostos um embrulho miserável. Nem quando o condutor olhou escandalizado para as notas que eu lhe entregava, eu compreendi. O homem cruzou os braços, um em frente do outro, abriu-os, desprendeu-os. «Já lhe disse que não paga
nada, dama. Já lhe disse várias vezes durante a viagem.
Nunca, madam, nunca encontrei ninguém tão semelhante a ela. Até no andar» – disse ele. «Fiz este percurso como se ela estivesse viva, e eu a transportasse, atrás de mim. Como se a tivesse perdido e a tivesse resgatado…» O resto disse-o em iídiche – «Oh! Yes, indz hobmer gehat a git leybn…Que vida boa tivemos…» Julgo que terá dito.
«Espere, tem muito tempo ainda. Fique um pouco mais. Como se eu a tivesse trazido para ir a Warsawa. Para ir e voltar…» – disse depois.
O condutor entrou definitivamente para dentro do grande carro. A hora deixou de ser folgada. Fiquei a olhar para as luzes da limusine. Pareciam as luzes de uma viatura oriunda de um espaço onde outrora tivesse existido uma perfeição desconhecida, que só a alguns tocava, e eu mal tinha vislumbrado. Duas luzes traseiras, vermelhas, que nunca se confundiram com as dos outros carros, enquanto foi possível localizá-las no emaranhado tráfego próprio da madrugada.

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