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Raízes - Tiago Salazar


Família

2017-06-29

 

 

Família I

Mandas um recado (uma provocação cruel). Respondo com palavras justas. A partir daí desatas a dizer o que dizes me devias ter dito há anos, não dizendo nada. Tudo porque faço a defesa da minha avó num momento destes, frágil, terminal. É a defesa cega do teu deus Príapo? São as tuas raivas projectadas? Entendo: é assim que funciona o cérebro emocional, o primário, o animal. Escrevo uma parábola de humor negro, mas não ponho lá nomes. Claro que é para ti, e para todos os arrogantes, egocêntricos, imbecis e estúpidos deste mundo. Mas ao escrever não me ponho a mim num trono de justiceiro-mor. Ponho-me entre os humanos que se querem mais humanos, mais justos. Já dei para o peditório do traumatizado infantil. Embora possa muito bem achar que o que o meu preclaro pai me fez há dias, deixando-me pendurado sem ai nem ui, não difere nada dos esquecimentos de me ir buscar quando era puto e ainda acreditava no pai natal. Concluo que voltou a ser a falta de iniciativa de pagamento do serviço oferecido o teu detonador, acicatada pelo larápio das maravilhas, o arranca-corações, o crápula. Incendiei, ardi, peguei fogo, espalhei brasas? Sim, é o meu feitio diante das injustiças, minhas e dos outros, e basta ler-me e ouvir-me e conhecer-me para lá da ganga para saber que sou assim. Sou de causas, paixões, justiça. Para terminar: estavam a “bater” numa pessoa a morrer, que não se podia defender. E porquê? Porque no entendimento do meu pai, o ódio que lhe tenho (que não tenho; é pena o que tenho) é culpa dela. Tenham misericórdia e compaixão pelo menos da minha avó, agora reduzida a pó. 

 

Família II

Ser capaz de dizer isto que me esgana neste dia de dissabor é o que mais quero.

Ser capaz de te mostrar exactamente o que é o meu mundo, a minha cabeça, o meu coração, aquilo que tudo faço e farei para mudar, por mim, por ti, pelos filhos, por ti, que me deste o que ninguém me deu, a possibilidade de crescer como homem, como ser, como alma insuflada de vida, e pelos filhos e todos os que me lêem ou venham a ler, porque se o trabalho da escrita ou outro qualquer não nascer daí, do húmus, a cada palavra, a cada linha, de nada vale.

O sexo e a sua moral consome-me. De tudo o que li, de tudo o que fiz, de tudo o que observei, não sei nem saberei explicar esta impetuosidade. Se é dos genes, se é próprio do sexo masculino, se é por ver e sentir no sexo um antídoto (estéril) para a morte, o ir de barriga cheia, de ego satisfeitinho. 

O ego que vejo dilatado sobretudo nos homens, os homens que se acham muito homens por darem a volta às mulheres, por as terem na mão, por as marcarem como cabeças de gado. 

O sexo, o nosso sexo, é um sexo da linguagem, da comunicação, da metafísica, do para além do sexo. 

Para uma mulher, para ti que dizes ter encontrado o teu homem, o sexo é decerto outra coisa, outras coisas, uma comunhão quando o corpo pede. 

Numa mulher sozinha será talvez a esperança de o homem que dorme com ela vir a ser inteiramente dela, como se pode ser inteiramente do que quer que seja, do amor que sempre se espera porque somos apenas do amor. 

Para o efeito, animal, sempre houve as fáceis da vida. 

Para o sexo que se quer mais do que sexo há toda uma linguagem a explorar. 

Como lido com o meu desejo que nunca cessa? Lido com desassossego e sei dos riscos que corro ao confessar-te o tanto que te desejo, o tanto que queria que fosse sempre como nos primeiros anos e quando é, como ainda ontem, contigo toda aberta para mim, como só pode dar e abrir-se quem muito ama. 

De um pai espera-se um exemplo de amor, de virtude, de força e integridade, e a capacidade para nos dizer o que é o sexo, dar-nos uma educação sexual e espiritual, como aprendi (tarde na vida?) com os meus amigos taoistas.

Do meu pai recebi o pior exemplo, a começar pelo dia em que a minha mãe me levou ao Algarve e o vi com uma amante, teria eu uns 7 anos. Nunca percebi o que se passava a não ser que o meu pai tinha saído de casa para sempre.

Lembrou-me de aos 13 ou 14 anos, estar na Quinta da Murta, na casa de banho, e olhar-me ao espelho cheio de brios porque tinha duas namoradas, uma a criada da casa, e outra, a camponesa das vindimas. O meu pai meteu-me numa orgia e passou a vida inteira a gabar-se do seu caralho e das suas conquistas, tanto como da sua coragem física. Andei anos a achar que isso é que estava bem, porque como ele dizia, o amor era uma ficção e um homem uma ilha. Semeou um rasto de sangue e lágrimas. Sangue na picada dos muitos que matou quando podia dizer não. Sangue de escaramuças. Lágrimas dos familiares das vítimas, lágrimas do avô e da avó, pelo enxovalho do apelido que tanto preza. Lágrimas das mulheres que o amaram. Lágrimas dos filhos. Chorei por ele vezes sem conta, um choro de um abandonado, de uma incógnita do que está atrás, do que é o karma, do que fazemos nós aqui. Sei que posso romper de vez com esta dor. Sei que por ti tudo fiz por me transformar, por amor, porque acredito que esta força que é tanto do mal, do mal fazer, também é das criações supremas. 

 

Família III

Não há base científica (só empírica) para ditar a natureza do ser humano, que, em última instância, morrerá com as suas boas (ou más) intenções, a divulgação ou a ocultação dos seus actos e pensamentos cometidos a cada novo dia, aquilo a que se chama de consciência. Por exemplo: ao ler autores do “Bem”, da Ética, do Caminho, e ao falar, comungar das minhas leituras, estou a mostrar-me por inteiro, de corpo e alma? Ou estou apenas a querer mostrar Trabalho? Ou a querer limpar a minha imagem de alguém que cometeu falhas, hoje, ontem, ou ao longo de toda a vida? Cresci sem referências por aí além, mas com a “sorte” de haver livros em casa, dinheiro para comer e ir à escola, uma avó professora, a imagem de um avô culto, de um avô patriarca, homem da família, da força e do carácter e dos valores dignos, mas profundamente magoado com os meus pais, que cedo me abandonaram, que nada me deram a não ser a vida, não a Vida. 

Tornei-me solitário. Primeiro para escapar ao ruído e à insânia doméstica, sozinho num quarto, a comer bolachas, a ler e a escrever (escrevinhar). Depois porque eram essas as minhas antenas: as da curiosidade insaciável. Era apenas um miúdo cheio de medos. Desde quando me tornei encolhido, no sentido de alguém preocupado com a carência, de dinheiro e assistência, sobretudo? Não sei precisar, nem interessa, a não ser fazer o que faço por fazer, que é fazer apenas o que mais gosto. Sei que tudo fiz desde cedo para ter algum dinheiro, pois nunca houve mesada ou semanada. Era tudo contado, e para ter dinheiro inventava expedientes, como obliterar o mesmo bilhete e não pagar nos transportes públicos. Ouvi ideias deformadas de riqueza e de modos de estar na vida ou de vestir e de cortar o cabelo, que por rebeldia e simpatia pelo Heavy Metal, deixei crescer. Fuçei, buli, perdi horas e horas a trabalhar nos jornais e revistas, a trabalhar no meu ser, na razão de ser e de sermos, de estar aqui, mesmo sabendo que não está tudo nas palavras, que nunca sairá daí o diamante. 

 

Família IV

É lixado estar fora, longe, ter que correr atrás deixando para trás quem mais gostamos. O tempo dilata. Vivemos isso aqui a toda a hora, com cada um a precisar da sua atenção, de amor e aceitação sobretudo. Tem sido uma luta dura, manter a alegria sobretudo. A alegria que nasce primeiro do amor entre pais e filhos e entre pais. Saber que se pode contar com os pais é a maior força e alegria. Ou com os amigos. Que when the going gets tough está lá alguém, nem que seja para dar um abraço e sentir que essa pessoa gosta de nós, ama-nos sem condições. Isto é breve para caraças e passamos tempo demais a tentar explicar o que não tem uma explicação. Há explicações. Há teorias. É o que é. 

Sobre o meu pai. É o meu pai. Fruto das circunstâncias fui o que são e serão milhões de seres, um filho do acaso não sentimental. A vida como ela é. Ainda menos, se não tivermos na nossa natureza sentimentalismo. Serve até certo para ponto para pensar de onde vimos. Mas o mais importante é para onde vamos e como vamos. Fiz o caminho vezes sem conta para ele, para saber quem ele era. Nunca vou saber, como ninguém sabe o que é num todo a que se chama Vida. Se houver alguma coisa para fazer é trabalhar a aceitação, mesmo do que pareça injusto. É o que faço, por exemplo, ao encarar todos os dias uma dívida de que sou solidário apenas porque casei (por amor). Dívida que mataria decerto a alma mais sensível. Posso agradecer aos genes ter força para encarar isto. Sei lá porquê, porque não fui criado com um pai ao lado - como o meu pai, e como ele gosta de salientar e contar os episódios viris do meu avô a esmurrar meio mundo quando para mim ele era um amoroso e pacifista. Teria sido bom ter sido criado por um pai a puxar pelo meu lado guerreiro. Talvez por não ter disso sempre demorei a reagir às agressividades inevitáveis da vida. A ganhar calo, cabedal, couraça, estofo para aguentar as injustiças da vida. Sempre demorei a reagir e acabei por encontrar na escrita uma forma de defesa, sabendo hoje que o que realmente conta é agir e não reagir, perdoar e andar e subir a escada. Ao contrário de há uns anos, em que me afastei achando que era irreversível, hoje sinto apenas que a vida deve seguir o seu curso e as pessoas devem encontrar-se em paz, sem sentirem nada do que as possa ter magoado, se assim forem capazes. Somos o que escolhemos. Todos vamos viver até ao fim com o que somos e o que formos capazes de mudar, e cabe a cada um escolher. Escolhi esta família, mesmo sabendo que gosto de andar por aí a viajar, a ver o mundo, a respirar outros ares, onde sou apenas parte do vento. Foi a viajar que encontrei o melhor de mim. Não há nada superior nesta vida a não ser o enigma que nos leva à transcendência e a experimentar as emoções mais fortes, e isso só se experimenta quando nos entregamos ao que quer que seja com todas as forças. Há quem escolha o ódio e a vingança como estilo de vida. Há quem escolha viver apenas e aceitar que a vida é para ser vivida. Com coragem de enfrentar. 

 

Família V 

Todos somos biografias inventadas, mesmo as escritas pelo nosso próprio punho. Somos este e somos o outro. Todos temos o bem e o mal encarnado, assim como temos a possibilidade de escolha. Todos temos que lidar com as nossas naturezas e fazer pela vida com aquilo que nos é dado viver, as nossa faculdades, não deixando nunca de estarmos à mercê do destino, por mais conscientes das nossas decisões e escolhas. Tudo o que fazemos tem apenas uma razão de ser que é sermos. Sermos humanos. 

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