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Raízes - Filomena Marona Beja


Direito de Sonhar

2018-04-23 08:27:02

Era para lá que gostavam de ir. Para a mesa ao fundo da sala maior da pastelaria. Resguardada. No entanto, com vista para a rua, olhando se pela montra. E sendo mais espaçosa que as outras mesas, conseguiam sentar se todos à sua volta. A pastelaria era a Bijou, no centro de uma cidade a despovoar se. E eles, um grupo de reformados. Juntavam se ali, a meio da manhã. Ao fim da tarde, se os retivera alguma consulta, ou sessão de terapia. Eram todos homens, todos amparados a uma bengala. Vinha o empregado perguntar o que tomavam.

«Ora!...»

Tília, cidreira, camomila. As tisanas que a idade lhes recomendava. Adoçante, em vez de açúcar.

E ficavam à conversa. «Viram o jogo da Selecção?...» «Ouviram o Presidente?...»

Calavam se. Olhavam a rua. A Rua Direita de São Nicolau. Bem, agora a rua tinha outro nome. Sim. Vinha nos mapas que a Câmara oferecia aos turistas. E no Google. Mas todos os daquela idade a conheciam por «Rua Direita». Do mesmo jeito, chamavam «Seminário» ao liceu onde tinham andado. Colégio de Jesuítas que passara a liceu, ia em quase duzentos anos.

«Foi lá que eu fiz do exame de admissão ao sétimo ano!...»
«Tu e eu...»
«Eu também! Depois fui para...»
Uns tinham ido para as faculdades de Coimbra ou de Lisboa. Outros ficaram por ali. Por uma cidade de serviços, arredores de vinho e azeite.
«Mas a gente de agora...»
Rapazes ou raparigas. Todos tinham ido para o liceu novo.
«Um bom edifício! Mandado construir de propósito, no tempo do Salazar.»
«Já não se fazem coisas daquelas!»
«Então não fazem?!»
«Depois de o gajo bater as botas, não se fizeram mais liceus? Mais escolas?...»
«Estão aí, para todos!»
Para quase todos.
«Claro! Mas, no nosso tempo era só para alguns...»
Pois era.
« ...E por isso, só alguns faziam carreira.»

A carreira de cada um atravessara muitos, muitos anos. Começara no tempo em que ser oficial de finanças, professor ou advogado exigia bom nível. Reconhecia se a sabedoria dos mais velhos, ou fingia se reconhecer. Afirmava se que, com eles, muito se aprendia. E se tomavam experiências únicas que, garantiam, passariam a outros. Portanto: o mérito implicava muito tacto e, às vezes, manha.

«A mim, exigiu me muita dedicação!...»

Quem o dizia ia já nos noventa e quatro anos. Médico.

«Nesse tempo, não se contava com o serviço de saúde público...»

As urgências asseguravam nas os médicos, abrindo as portas dos consultórios a qualquer hora. Indo onde fosse preciso.

«E às vezes... Não havia nem dinheiro para os medicamentos, nem farmácia que os fiasse.»

Ainda se entristeciam os olhos do doutor.

O empregado voltou a aproximar se da mesa. «Os senhores vão desejar mais alguma coisa?...»

Estavam servidos. «Obrigado, José!»

Continuaram a olhar para a rua. À Rua Direita de São Nicolau faltava a agitação de antigamente. De manhã, as donas de casa ainda passavam a caminho do mercado. Ainda paravam e metiam conversa umas com as outras.

«Vai melhor o tempo, hoje...»

«Nem tem comparação!»

«Quem conseguiu vaga no lar da Misericórdia foi a viúva do...»

«Olhe, e a comadre sabe quem morreu?...»

« ...Não me diga!»

Mas já não se ia às compras de panos e colchas para os enxovais. Não se fugia das carroças. Nem se apanhavam as saias, não fossem salpicar se de lama. E faltavam os mirones, pelas portas das lojas de ferragens. Naquela tarde, porém, repetiu se alguma coisa do passado. Estava se em Fevereiro. E da charneca que ficava para sul, tinham chegado as vendedeiras de espargos. Raparigas sentadas pelo chão com uma alcofa diante de si. «Foram apanhados hoje!... São bravos!... Bravos!»

Tão bons, mexidos com ovos!

Mas já não havia ovos como os de antigamente. Nem boas sertãs em ferro. Muito menos quem agitasse as colheres de pau como as cozinheiras que tinham servido lá em casa.

Mas Fevereiro era, também, tempo de Carnaval. Bailes. Miúdos mascarados. Algumas serpentinas, alguns saquitos de arroz atirados pelo ar. E a Câmara Municipal tinha pronto um grande desfile, para sair na tarde de sábado gordo.

Cabeçudos, matrafonas, gaiteiros e tamborileiros Rua Direita adiante, até ao Largo da Sé. Antigo Largo do Seminário. Assim o prometera um dos candidatos às últimas eleições. O candidato vencera, nas urnas. E agora, na cadeira de Presidente, cumpria o prometido.

Ah! Desfilaria, também, uma escola de samba!
«Uma escola de samba do Rio de Janeiro?...»
«Tijuca?... Rocinha?...»
Sim, uma dessas.
«Fixe!»
«Melhor que ter cá um circo!»
«Muito melhor!»
De resto, as pessoas iam cada vez menos aos circos que paravam na cidade.
«Dantes, eu ia.»
«Eu também! E não perdia um teatro, fosse aqui, fosse em Lisboa ou no estrangeiro!»
Já todos tinham estado no estrangeiro. Em Espanha, Paris, Roma.
«Mas ao Brasil nunca fui.»
«Nem eu...»
O Calçadão de Copacabana. São Salvador da Baía, Manaus.
«E subir o Amazonas!»

Dizem que cachaça é água!
Cachaça não é água, não!
Cachaça vem do alambique...

Subitamente, enchera se a sala da pastelaria. Um grupo de raparigas morenas, risos, passadas de dança. José, o empregado, no meio delas. O que queriam? O que haveriam de querer?

«Café!»
«Um cafezinho bem gostoso...»
« ...coado à maneira!»
Ai, aquele sotaque!
«Ai!...»
«São as garotas da escola de samba!»
Eram.
E à mesa do fundo, todos sentiram uma grande vontade de se levantar. De ir sambar com elas.
«Seremos capazes?...»
«Não te preocupes...»
Um a um, encostaram as bengalas à parede. Endireitaram os colarinhos das camisas, as golas dos casacos. E, com as pontas dos dedos, compuseram os bigodes.
«Vamos lá?...»
Olharam uns para os outros. Acenaram que sim.
«Vamos!»
«E seja o que Deus quiser...»

«José, faça nos um favor... Arranje nos espaço aí a meio da sala...»

Arredasse as mesas e as cadeiras. E pedisse às meninas brasileiras que fossem até lá.
« ...logo que elas acabem de tomar o café.»
Eram velhos, sim. Mas continuavam a ter direito de sonhar.

 

Sintra/Fevereiro, 2017.

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