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Raízes - Lídia Jorge


A Literatura lava com lágrimas ardentes os olhos da História.

2018-05-04 10:00:31



Dulce Maria Ramos Ramos, El Universal, Bogotá, entrevista Lídia Jorge.

-¿Se considera más una narradora o una cronista de su tiempo?

Considero-me uma narradora. Se me perguntam o que penso do mundo eu não construo uma argumentação filosófica, eu inicio uma demonstração que começa por era uma vez. Era uma vez define um modo de entrar na realidade e revelá-la. Nessa perspectiva também sou uma cronista do tempo que passa, mas a crónica que construo não dispensa a alucinação. Confesso que os meus materiais provêm do mundo real e vivido, mas diante do papel a realidade imaginada é a única que me interessa.

-Los críticos han relacionado su obra con el realismo mágico, ¿le molesta esta percepción o está de acuerdo?

Não me molesta nada porque dei algumas razões para isso, e de forma consciente. A subversão que o realismo mágico propôs libertou a escrita e o pensamento dos ferros da realidade concreta. Mas no meu caso o maravilhoso em si mesmo nunca foi um caminho. Creio que posso dizer que o meu “irrealismo” provém da fantasia subjectiva. A serpente voadora do meu primeiro livro, “O Dia dos Prodígios”, era assumidamente uma figura mental vivida por um colectivo. Resumiria dizendo que e transfiguração psicológica é muito mais o meu caminho.

-¿Para qué sirve escribir una novela o un cuento sobre la historia reciente de un país, especialmente cuando esta historia, a veces, es dolorosa y quizás sus ciudadanos lo que buscan es olvidar el pasado? ¿En una guerra o dictadura para qué sirve la literatura?

Creio que sim, que as sociedades querem esquecer rapidamente os momentos de sofrimento. Mas não podem esquecer. Se se esqueceram a tragédia regressará rapidamente e tomará nas mãos os esquecidos para lhes infligir de volta as mesmas misérias. A Literatura, o campo florescente da História, ou como dizia Carlos Fuentes, a Segunda História, serve para tornar eternamente presente a experiência colhida nas curvas duras do tempo. Desde que envolvidas na beleza da transfiguração. A Literatura lava com lágrimas ardentes os olhos da História.

-Ud. Ha dicho recientemente en una entrevista que el papel de la literatura es inquietarnos, también ha comentado que la literatura tiene una labor ética.  En su caso, cree que su obra ha conseguido este propósito.

 A Literatura serve para nos mantermos acordados e vigilantes sobre a nossa própria natureza. Foi o que pretendeu o autor ou autores da Ilíada, e desde então todos aqueles que se entregam ao trabalho de narrar o seu tempo para o tornar memorável para os contemporâneos e os vindouros. Eu também padeço dessa ambição, que no fundo corresponde a uma certa deontologia de todo o escritor. Mas se chego a inquietar os outros, ou a atingir esse nível superior que é o de passar uma ética, já não me cabe avaliar. Porque a ética na Literatura não é alcançada no plano moral, mas sim ao nível da beleza.

-Ud. vivió en África, qué le dio esta cultura a su escritura.  ¿Qué significo ser inmigrante, extranjera?

 Em África eu não fui imigrante nem estrangeira, eu encontrava-me do lado dos colonos, os que faziam a guerra para impedir a autodeterminação dos territórios que viriam a constituir os novos países. Muito complicado. Dentro dessa estrutura eu fui uma espia que aprendia, a cada dia, uma lição da História da colonização. Uma espia entre duas culturas. Escrevi um livro a partir dessa experiência cujo título é A Costa dos Murmúrios. Nele se mostra como é amar o mais fraco.

-También vivió la dictadura y la guerra.  En estas circunstancias, ¿la mujer es la que más sufre?

Sim, é comum dizer-se que são as mulheres quem mais sofre. Há razões de sobejo para afirmá-lo. Mas eu acho que são as crianças aquelas que mais sofrem. Sobre as crianças abatem-se todas as misérias dos homens e das mulheres, o que sempre é heterogéneo. Abate-se o peso da violência, do silêncio, do rapto, da desinformação e da morte. Cumulativamente, o mal que provém das vidas oprimidas da mãe e do pai, e do grupo onde se movem. São elas, as crianças, quem fica com um selo na testa para sempre. Em nome delas e do futuro, não deveria haver ditaduras nem guerras.

-¿Se identifica con otros escritores que han escrito sobre la dictadura o la guerra en sus países?

Admiro livros que vivem na minha memória, como O Coração das Trevas de Joseph Conrad, Os Sete Pilares da Sabedoria de Thomas Edward Lawrence, A Insustentável leveza do Ser de Milan Kundera, ou Porto Sudão de Olivier Roland. Qualquer um destes autores partiu da sua própria experiência, enfrentou a sua contemporaneidade, escreveu sobre ela, e criou obras que durarão enquanto houver leitores de Literatura.

-¿Ud. cree que sus novelas son de perdedores o supervivientes?

Não posso aplicar essa disjunção às minhas personagens.  Em geral elas são perdedoras e sobreviventes porque ficam para contar e falam da sua própria salvação, porque testemunham. A minha maior perdedora chama-se Milene, é a figura central de “O Vento Assobiando nas Gruas”, ela é oligofrénica, roubaram-lhe a fertilidade, utilizaram-na politicamente, ela não é ninguém, mas é o veículo de denúncia de uma família e de um sistema. É uma sobrevivente porque permite o testemunho.

-La literatura portuguesa se caracteriza por su melancólica o como diría Saramago llena de “saudade”.  ¿ busca ser más reflexiva, intimista, pero algo pesimista con el mundo y su futuro? Quizás es una escritura que

Sim, é uma literatura intimista, reflexiva, poética, de construção litúrgica, como se os grandes escritores portugueses precisassem da repetição e da solenidade, para atingir o sentido mais profundo. Há alguma coisa de religioso no discurso português, mesmo quando a escrita resulta de um sentimento profundamente ateu, como é o caso de Vergílio Ferreira e do próprio José Saramago. Mas não posso chamar pessimista a uma literatura cheia de energia na sua construção. É uma literatura plena de vitalidade. Existe atrás dos escritores portugueses um país muito duro que não lhes permite a banalidade.

- ¿Qué le robó y dio la dictadura? ¿Qué le ha dado y quitado la democracia? 

A ditadura roubou-me os homens da minha família que tiveram de emigrar, quando eu era muito pequena, e a maior parte deles nunca mais voltou. E deu-me uma escola má, porém, com professores maravilhosos, que ainda hoje caminham a meu lado. A democracia só me deu coisas boas. A sua imperfeição é apenas o lado esponjoso que todos os dias tem de ser combatido. Mas a liberdade de opinião e o debate livre das ideias são bens por demais preciosos.

- “Tenía veinte años cuando aprendí que la paz no nos es dada como un don natural sino que se trata de una unidad de medida y que con este nombre ha de inscribirse en el tiempo como una conquista y no como un don. Aprendí que el tiempo de paz engendra una cierta nostalgia…” Hoy, un mundo amenazado por guerras, con crisis en las democracias latinoamericanas, con Donald Trump como el presidente del país más poderoso del mundo, ¿cómo ve la paz?   

Hoje em dia, a paz é uma criança com os dois pés pousados sobre uma bola, brincando à beira do abismo. Ainda por cima alguém a vendou. Isto para dizer que vivemos sob a ameaça de um perigo eminente. A minha esperança é de que todos os dias estamos à beira de uma guerra, mas todos os dias, também, estamos a ponto de a evitar.

-¿Escribir para que no se olviden los murmullos o susurros? 

Sim, escrever para que não nos olvidemos de como foi, quando cada geração já passou. Convivi em criança com um combatente da Primeira Guerra Mundial, no Norte de França, prisioneiro dos alemães em 1918. A princípio ele contava como era o som dos canhões e deitava-se na terra para demonstrar como havia acontecido o desastre de La Lys. À medida que os anos passavam, o ex-combatente ia resumindo cada vez mais a sua própria história a ponto de, na última vez que falámos, ter dito que já só se lembrava de que tinha ido à guerra. Depois morreu. A princípio havia palavras e imagens, como num filme, depois palavras. Por fim tinha-se deixado de ouvir os últimos sussurros da sua voz. Nessa altura, eu quis escrever “A Costa dos Murmúrios” para ajudar a não esquecer a guerra a que eu mesma tinha assistido em África.

-Justamente ese libro fue adaptado cinematográficamente.   ¿Quedó contenta con la película? ¿Qué le pareció?

A Costa dos Murmúrios” teve a sorte de ter inspirado um filme maravilhoso. A partir da sua história, Margarida Cardoso criou uma película de subtileza impressionante. São, porém, dois objectos distintos. Eu diria que o filme de Margarida Cardoso é mais pacifista, mas feminista e mais intimista do que o meu livro, mas revejo-me nesse desvio. O filme ganha com ele, substituindo em imagem aquilo que da literatura não pode passar para o domínio do cinema. A sequência da matança dos flamingos, constitui, hoje em dia, uma passagem clássica da filmografia portuguesa.

-¿Qué queda de la lidia Jorge que escribió su primer novela “O día dos prodigios”?

Permanece a mesma. Apenas usa roupas mais largas.

- ¿Qué palabra borraría de su diccionario y por qué?

Não retiraria nenhuma palavra do dicionário. Todas me fazem falta, mesmo a mais feia de todas que é a palavra verme. Aliás, faltam palavras nos dicionários porque faltam palavras à humanidade. Não há palavras suficientes para explicar a diversidade do amor, da raiva, ou da saudade. Mesmo a palavra mais feia de todas, verme, carece de variáveis, porque uma coisa é o minúsculo animal invertebrado que anda no interior da fruta, e outra é o ser humano a que se aplica, e por triste que seja, há seres assim. Mas faltam palavras para tudo isso. Paixão, por exemplo, tem graus, interpretações diversas, sentidos vários. Só uma palavra. Que pena.

-  -Finalmente, la pregunta que le hago a todos los escritores, ¿cómo es la ventana por donde mira Lidia Jorge? (su ventana, real, literaria o metafórica.

Em Lisboa, são duas janelas numa sala só. Uma virada a nascente, onde o sol entra pela manhã. A outra a oriente, onde o sol se põe ao fim do dia. Como as janelas são paralelas, as imagens reflectem-se reciprocamente, como espelhos. Assim, todas as manhãs, nascem vários sóis, todas as tardes, acontecem vários poentes. Sinto-me bem no meio dessa ilusão. Um arquitecto desconhecido ofereceu-me este universo que não tem fim.

Lisboa, 12 de Abril, 2018.

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