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Raízes - Nuno Amado


O ciclo de vida de um romance

2018-05-24 12:15:00

Comecei a escrever e algum tempo depois, não me lembro bem quanto, talvez quatro anos, talvez o tempo que foi preciso para ver cinquenta e dois filmes no cinema, talvez os dias que ocuparam paixão e meia, talvez o período para se jogar um campeonato da Europa e um Mundial, o meu novo livro estava pronto. Num daqueles golpes de fortuna que ocorre na vida quando lhe dá para praticar judo o livro foi impresso e, arrumadas as minhas palavras sobre uma capa feita por pessoas de talento, foi distribuído pelas livrarias num processo um pouco menos complexo do que o comportamento de certas mulheres de olhos felinos às quatro da manhã de certos sábados.

Que um livro com o título “Parem todos os relógios” possa estar perto de “O idiota” ou “Cem anos de solidão” não é algo assim tão extraordinário, até porque o título roubei-o a um poema (e a sabedoria não é muito mais do que roubar tudo o que conseguirmos à poesia). Mas que o meu nome esteja a alguns palmos (e gansos) de distância do Dostoiévski ou do Garcia Marquéz só não me produz uma febre mental (daquelas que me lança pela rua a deitar abaixo com palmadas os chapéus de cavalheiros), porque bem perto do meu nome e do meu livro também estão livros com dietas que não vão ser seguidas mais do que dois dias nem pela pessoa que as escreveu, assim como manuais de auto-ajuda transcritos de powerpoints de workshops por autores tristes ou romances onde se referencia demasiadas vezes a marca de batom da heroína.

Durante alguns meses o meu livro vai estar deitado de barriga para cima em algumas livrarias. Não passará assim mais tempo porque os livros são como os iogurtes e têm, dizem-me os jornalistas, um prazo de validade muito curto. Depois das férias de papo para o ar ao lado das outras novidades, de reedições de best-sellers e de clássicos numa nova tradução feita por um prodígio de línguas que passou horas a hesitar em como escrever em português uma frase que só faz sentido em húngaro, o livro irá para as prateleiras onde vai ter, como os lisboetas que andam de metro durante a hora de ponta, de aguentar em pé entalado entre os seus semelhantes. Esta nova era da vida do livro restringe-lhe demasiado a socialização. Ao espartilho da nacionalidade, que o envia para a secção dos autores portugueses, segue-se o espartilho do alfabeto. Dado que sou Amado, o meu livro acabará muitas vezes perto do Domingos Amaral, que é um gajo porreiro, e que de certa forma já foi meu patrão, e não muito longe do Antunes (precedido de Lobo) que, ouvi dizer, age sempre como o Patrão.

Passado algum tempo, talvez um par de anos, talvez o tempo que é preciso para que o nosso psicanalista comece mesmo a perceber os nossos sonhos (especialmente aqueles em que entra a nossa explicadora de Grego do liceu), talvez as centenas ou milhares de dias que são necessários para finalmente ver todos os episódios daquela série que as pessoas diziam ser incrível há uns verões atrás, o livro desaparecerá até do seu espaço apertado na prateleira para ser vendido a preço reduzido em bancas cheias de obras em igual condição, perto de uma estação de comboios ou mesmo numa feira com carrinhos de choque.

Como a vida tem poucas certezas, além da morte, dos impostos e das conversas sobre metereologia em elevadores, o “Parem todo os relógios” ainda poderá ser resgatado. O mais eficaz, creio, seria eu morrer uma morte pouco usual, preferencialmente heróica, ainda mais preferencialmente filmada em telemóveis e exibida em loop nos canais de notícias. Imagino-me a salvar uma excursão de crianças de um leão fugido, a liderar tropas na guerra de independência da Grécia, ou a saltar sobre uma velhinha simpática no corredor dos enlatados de um hipermercado conhecido e protegê-la com o meu corpo da queda de centenas de latas de feijão (e umas dezenas de lentilhas). Se um close-up do rosto choroso da dona Efigénia, enquanto ela lamenta que me tenha causado a morte só porque o marido estava com saudades da sua feijoada, não voltar a devolver o “Parem todos os relógios” aos escaparates das livrarias ainda bem que estarei morto porque perderia a fé na literatura. Como não me apetece morrer para promover os meus livros, especialmente tão perto das lasanhas congeladas, prefiro outras hipóteses. Imagino, por exemplo, que num prémio literário em que o resultado tenha de ser unânime, os membros do júri, nenhum dos quais acha o meu livro grande coisa, acabem por o eleger só porque detestam as preferências uns dos outros. Ou, ainda melhor, imagino que consigo escrever um novo livro e que, por obra do destino, das modas literárias, dos ventos que sopram daqui e dali, do pequeno-almoço agradável de certo crítico antes de decidir sobre que livros escrever, das tendências de leitura da sociedade contemporânea, dum salto surpreendente na qualidade da minha prosa, duma polémica inesperada que a minha nova obra suscitou e que me permitiu aparecer no telejornal (deixando-me tão nervoso que passei a entrevista mais preocupado com a minha urgência em ir à casa de banho do que com as perguntas do Rodrigo Guedes de Carvalho), o meu nome vai parar à lista de Best-sellers e as minhas obras anteriores regressam às livrarias (e ao preço não reduzido!).

Mas a verdade é que não é nada importante que isso aconteça. Porque, num daqueles golpes de fortuna que ocorre na vida quando lhe dá imitar o Bruce Lee, o “Parem todos os relógios” não só já esteve (e ainda está) em mais livrarias do que as que frequentei em toda a vida, como saiu (e continua a sair) delas para ir parar a casas que nunca visitei e ser lido por pessoas que não são (ainda) minhas amigas ou sequer conhecidas.

Um dia enquanto passeava comecei a imaginar a história de uma Helena Remington. Escrevia-a e reescrevi-a sempre a tentar fazer justiça a essa mulher que nunca sequer existiu. Queria fazer um romance que não fosse chato ou poeirento e que desse gozo. Queria pôr em frases e parágrafos algum do espanto, susto e gratidão que há em qualquer vida. Queria criar um livro que pudesse trazer aos seus leitores o que recebo de algumas manhãs de primavera.

Resultou? Falhei? Falhei melhor? Como deve ser com os sonhos, não interessa conseguir mas tentar.

Por muito alegria que sinta em ver o “Parem todos os relógios” nas livrarias, não se compara à felicidade de o saber lido. A verdade é que os livros não existem nas montras, prateleiras, bibliotecas ou estantes. O único espaço que lhes importa ocupar é a mente dos leitores. Aí é onde podem trabalhar, passar férias, ansiar e existir. Que haja quem leia o livro que escrevi é tão encantador e surpreendente como descobrir que ontem há noite alguém sonhou o mesmo sonho que eu.

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