loading gif
Loading...

Raízes - Mário Lúcio Sousa


O Diabo Foi Meu Padeiro

2019-09-16 11:44:35

_ Sodade, sodade é defumador de homens, foi o que mais me matou, consumiu-me até ao tutano,

disse-me Luís em resposta à pergunta sobre o que foi mais difícil de suportar, calando assim o barroco testemunho que começara com poesia e realismo dois anos antes, dizendo, como se estivesse chegando de outro mundo:

_ Eu fui morrido em Outubro de 1967 e conheci o diabo às duas da tarde. Mas do diabo falarei mais adiante.

Com seu jeito manso e seus óculos certinhos de pessoa torcida e secada por uma história que parecia não ter fim, seus cabelos retraídos como um prenúncio de tsunami, e sua testa feita praia de lembranças naufragadas, mostrou-me todas as suas indeléveis e alegóricas provas de um tempo que passou, mas que nunca mais acabará de passar para quem o viveu.

_ Morriam-nos, para não nos matarem, este era o segredo,

afirmou: Se nos matassem, a culpa seria deles; se nos deixássemos morrer, o ónus seria levianamente nosso, prova de fraqueza de um bando de gabarolas e bazofos irresponsáveis maquilhados de salvadores da pátria. Eles queriam que encontrássemos a morte pelos nossos próprios pés, para que servíssemos de lição aos andarilhos pela liberdade. Morrer no inferno era um processo agonizante e lento. Esse era o castigo. A morte vinha depois, libertadora. Podíamos morrer com a nuvem que passava como uma renda de noivado desfeito, com o canto do passarinho que chilreava longínquo e bem perto a boa-nova, com a montanha impávida, com um recado adiado, ou de sodade, sobretudo quando chovia aquela chuvinha tísica das ilhas, mais parecida com lágrimas de arrozais do céu, que só pingavam do lado e onde nós morríamos, onde a luz, a falta dela, o alfabeto esquivo, a própria gente desconfiada faziam procissão para se aguentar de pé. Viver era morrer. Era tão verdade que só muita consciência podia nos salvar de não crermos na nossa própria mal-aventurança. Tudo desencadeava uma ansiedade supersticiosa e tendia a alimentar o nosso colonizado pensamento de termos cometido um grande erro.
Poupar o condenado ao sofrimento não é uma boa estratégia quando o sofrimento é um bom negócio. Muita atenção, porém,
advertiu-me Luís:

_ Essas não eram as causas da morte, eram os modos de morrer.
A causa era o pensamento.

O pensamento, disse-me Luís quarenta e quatro anos depois:

_ Só que a causa da morte não morre, os modos de morrer, sim, morrem com a criatura. Felizmente, cedo compreendemos, nós os morridos, que o diabo plantara os tais modos de morrer para criar um magnético campo entre a causa da morte e a morte da causa. É tudo o que ele ansiava: que pensássemos na vida, na família que ficou abandonada, no filho órfão, na irmã doente, na mãe com as tripas enroladas, na vida interrompida por uma suposta irresponsabilidade juvenil, no futuro destroçado por uma utopia, no anel de compromisso, na frescura da varanda, nos domingos na praia, nas merendas, no vinho, pois, assim, torturavas-te por vocação de açoitar as tuas próprias nádegas, apimentavas o inferno com sal nas tuas feridas, atiçavas o fogo no calor das provocações, açoitavas-te, arrancavas-te os cabelos da cabeça, viravas uma vela ao sol, a tal chama que não ilumina e o coto que se encolhe e se desfaz em montes de lágrimas e ranhos pelo chão, enfim, como dizemos em crioulo, tu e ca nada vira quel mesm. Milagrosamente, foi Montaigne, cujas obras eram proibidas no inferno, quem apareceu e me disse, sussurrando leituras como espíritos de centros falidos: Não há lugar na Terra onde a morte não nos encontre – mesmo que voltemos a cabeça uma e outra vez olhando em todas as direcções, como numa terra estranha e suspeita… Para começar a tirar da morte seu grande trunfo sobre nós, adoptemos o caminho contrário ao usual; vamos privar a morte da sua estranheza, vamos frequentá-la, acostumarmo-nos a ela; não tenhamos nada senão ela em mente… Não sabemos onde a morte nos espera; então vamos esperar por ela em toda a parte. Praticar a morte é praticar a liberdade,

recitou Luís, duvidando da memória, indo e voltando nas datas, e ratificando com a cabeça o achado das palavras originais. Recostou-se na cadeira como um paxá de encomenda. Os olhos de peixe voltaram a lacrimejar, mas dessa vez, tristes cascatas de um céu aprendiz. Chorou mansamente, melancólico e compassivo, e sem emitir qualquer som. Voltou, de repente, da morte, vivo, para voltar e ela, pontualizando:

_ A compreensão da morte liberta-nos de todo o medo. Eu decidi, por causa de um telegrama, que iria sobreviver a todas as trampas da morte. E olha, cá estou eu, testemunho e voz, vivente e sobrevivente de um fim repescado na rede da solidariedade, para comprovar como as coisas na verdade se passaram há mais de quarenta anos, ou seja, que essas coisas se passaram há apenas quarenta e quatro anos.

Respirou cansado sobre a barriga curva e continuou, diáfano e resignado:

_ A minha história é apenas uma fracção pequenote da tamanha desventura, pois eu era um simples estudante de dezanove anos quando os empregados do diabo me interpelaram pela primeira vez. Levaram-me num carrossel, tocaram tambores nas minhas costelas, fizeram ecos com bolas-sabão de cuspos na minha cara, ritmaram e desritmaram os passos e os compassos, evocaram o rei, a rainha, a banda e o porta-bandeiras, e colocaram-me durante três dias num camarote dedicado aos integrantes da ala esquerda. Parecia um carnaval. Fiquei lá sozinho com os meus botões, que saltitavam de casa em casa, evitando o pensamento. Então aprendi que, quando entras no carnaval do diabo, nunca mais sais. Ou viras carrasco de cortejo, gongon, que é diabinho urbano, ou adquires o direito perpétuo ao camarote. Aconteceu comigo. Quando fiz vinte anos vieram buscar-me. Era Janeiro. Os meus botões ficaram quietos a ouvir os pêlos do meu nariz. Por esse malabarismo de escuta interior e exterior em simultâneo, azar este desígnio de gente ter nariz desde o primeiro barro, puseram-me a ocupar o camarote por três meses. Depois de noventa dias e noventa noites, uma manhã, simplesmente, mandaram-me embora, sem perdão nem desculpa. Mas, então, eu já estava cadastrado na folia. Percebi que, cedo ou tarde, chegaria a minha vez de também ser morrido, ditefeito,

sentenciou Luís, numa alegoria profundamente vincada pela necessidade de codificar as mensagens na prisão, a velha táctica de falar diante de toda a gente, para todo o mundo escutar, mas ninguém poder usar as tuas palavras contra ti.

_ O inferno foi instituído pelo Decreto-Lei número 26.539, de Abril de 1936,

disse: Sempre que me lembro disso, o meu tímpano zune como se um raio sonoro estivesse a atravessar o cosmos pelo túnel do meu ouvido. O que me interpelou desde as primeiras leituras desse abominável documento foi a utilização do tempo futuro, como destinar-se-á, poderão, porque os tempos verbais futuros, assim usados, guardam intencionais segredos de que o pior pode estar ainda para vir. E estava. Fronta panhá nós, eu disse logo. Quando cheguei, eu mais os meus companheiros, o diabo fez-nos uma recepção literalmente cabo-verdiana. Com um sermão, defendeu o seu posto de trabalho, vulgo o inferno, que ele classificou de não ser o melhor lugar do mundo, mas tampouco o pior, e explicou-nos que íamos para lá para sermos reeducados, para voltarmos a abraçar a civilização e os valores da pátria portuguesa.
Depois, encaminhou-nos ao refeitório do inferno e ofereceu-nos uma lagostada. Lagostas no inferno? Estranhei. Pois sim, vermelhas e rosadas, com antenas, cauda, ovas, patas, crosta, folho, urópodes em forma de leque, olhinhos de japonês com furúnculo, e aquele corpo com formato de constelação. Dei uma gargalhada. O diabo olhou intrigado para mim, como quem nunca ouvira alguém rir, fez o local cheirar a enxofre e chicote de rabo de boi, fitou-me de cima a baixo, com desprezo e curiosidade, e perguntou-me:
«De que te ris, sampadjudo?»
«É Palinurus charlestoni, mais conhecida por lagosta-de-cabo-verde», contestei com água na boca. Mas ele tinha uma pedra
na mão. «Fala», disse-me, com um desdém e uma calma que fizeram as lagostas ficar brancas. Ouvi as gargantas engolirem uma cabaça cheia de água, que fez glutum. Isso queria dizer que o diabo, sempre que fala, dá uma ordem. É um sinal particular de alto reconhecimento: o diabo não dialoga. Diabo é desarento.
Fiquei mudo.
O diabo deu ordens para os morridos se sentarem, e desapareceu. Coisas do diabo, pensei. Comemos sem soberba nem avareza, que no inferno não são pecados, e relaxamo-nos. Ainda a lamber os dedos, ouvimos um som metálico, como se algum diabo sineiro estivesse a malhar na bigorna um caminho-de-ferro vertical, ou a forjar com relâmpagos emprestados candentes fogos do inferno. Tivemos de deixar imediatamente os pratos. Nisso, uma voz autoritária desviou-me para a cozinha. O diabo-director estava ali de pé, com as mãos atrás das costas, à minha espera. Mandou seu adjunto abrir dois alguidares cheios de peixe, apontou e perguntou-me com aleivosia e chacota: «Então, o que é que vamos jantar, rapazinho de S. Vicente?» Eram peixes que as pessoas comuns davam aos porcos e cães, e estes, às vezes nem os queriam.
Captei logo que ia ser vilipendiado e castigado. Mas olha como são as coincidências da vida: na segunda vez que me levaram preso para o camarote, nas vésperas do Carnaval, eu tive como companheiro de cela um português de nome Carlos Consiglieri.
Ele trabalhava para a companhia de pesca Congel. Foi meu professor durante três meses na prisão, e ensinou-me toda a ciência sobre peixes.
Assustado, mas seguro, comecei a nomear os peixes: «Aquele ali é Mobula tarapacana
A minha pronúncia não era de fingidor. Mas faltou ao diabo a certeza. Olhou desconfiado para a audiência, procurou alguém para zombar de mim, mas, sorte minha, saiu um auxiliar, que disse: «Aqui chamamos de Ucha.»
O diabo director rangeu os dentes e ordenou-me: «Prossiga.»
«Aquele ali é Dactylopterus volitans», afirmei.
«É voador-do-mar, ou Congo mapo, ou engorda porcos», complementou o auxiliar tradutor.
Amparado, continuei: «Esse é Rypticus saponaceus
«Peixe-Sabão», disse o tradutor com uma cara azeda.
Era um peixe que punha os javalis atacados da tosse e a cuspirem grandes bolas de sabão, tanto que os chiqueiros dos bairros ficavam a borbulhar como ruínas de chuvas de artifícios.
Acelerei: «Synodus synodus
«Peixe-Lagarto», confirmou o tradutor.
«Uranoscopus polli
«Aqui é Balaio Velho», traduziu expedito.
«Holacanthus africanus
«Galo-do-Mar, ou Tá Fede.»
E o diabo director fez bu óóó guer guer guerr, ali diante de toda a gente. Deu-me vontade de rir. Mas ele aguentou o vómito, apertou os dentes, a barriga, e ficou com os olhos em lágrimas a olhar para o peixe, que parecia um prisma óptico, aguarelando azul, lilás, violeta, amarelo, vermelho, preto, verde.
Só entendi a gravidade da minha ousadia, nomeando aqueles peixes que meu antigo colega de camarote me ensinara como não comestíveis, quando escutei seus nomes na língua vernácula dos auxiliares. A Cabrinha, um peixe com cara de puta, diziam os pescadores, e que vivia no desaguar dos esgotos no mar; o Trinchante, um que era e não era peixe, pois inchava e desinchava conforme a maré, ora boiava como uma esfera de vidro com rabo e ficava completamente transparente, ora morria na praia, literalmente sem ar, plasmado como uma pastilha elástica na calçada; o Crun, ou peixe- espinho, cuja única utilidade era ser abat jour, e outros, fizeram-nos o deleite. Mas quando um molusco rugoso apareceu, a situação mudou tristemente de figura. Os diabos auxiliares começaram a coçar a garganta, a remexer no caqui, como se me quisessem dizer para eu saltar por cima do bicho. Engraçado, porque este era o único petisco bom de todo aquele alguidar. Eu não conhecia os sinais, a semiótica do inferno, e então, por vaidade e por ignorância, que, no fundo, são a mesma coisa, disse:
«Aplysia punctata
...
Aplysia punctata, repeti, mas os tradutores engoliram a língua.
O diabo director chamou para perto de si os dois conhecedores de peixes e perguntou-lhes: «Então, este não tem nome crioulo?» O mais gordinho, que era mais acanhado, mas também mais covarde, respondeu: «Em crioulo é Catota Mar.» Eu não conhecia a palavra Catota, e perguntei.
«Vagina do Mar», explicou-me o próprio director.
«Na minha ilha é Cona de Bedja, Cona da Velha», acrescentei.
«Não lhe perguntei», admoestou-me o diabo. «Aos seus aposentos», ordenou e saiu, mas não sem antes resmungar: «Pelo menos, já sei o que me espera. Vocês não imaginam o que vos aguarda, seus espertinhos comunistas de meia-tigela.»
Fomos recolhidos à cela.
Foi então que a nossa história começou.

_ E os outros?,
perguntei a Luís.

 

Comentários


Ainda não existem comentários para este questionário.

Mais raízes

Voltar

Faça o login na sua conta do Portal