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Raízes - Ana Margarida de Carvalho


O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça

2019-11-20 16:33:05

ela o nosso maior pesadelo, ela a nossa maior aliada,
já nos auxiliou em momentos de aflição muitas vezes,
já nos levou à beira do precipício ainda mais vezes,
vossemecês voam depressa da gratidão à submissão, pois se não há meios‑termos no quilombo, se Jesus por aqui passasse teria muito que se explicar, mas se eu te digo, Emilinha, que isto não é da Sua invenção, então quem nos deixou em testamento este mundo avariado, querem lá ver…, tudo de mau que nos acontece cá em baixo está escrito lá em cima, dizem que usava um fatinho de saia às riscas de tomar banho no rio, nisso somos mais afortunadas, que para nos banharmos no rio temos a pele e duas sentinelas a vigiar, não procurem pulgas para se coçarem, moças novas, ninguém se desnuda impunemente, ora tiazinha, comemos todas do mesmo prato, pois sim, mas se vos reprovo, é porque é muito fácil encalhar nesses baixios do rio, e nos da vida,
olha a Patrícia, mulher do Tereso, anda aí a catar as migalhas que as outras mulheres sacodem para o terreiro, nunca se adaptou a estas paragens do vento e da poeira, nenhum forasteiro se adapta, mais cedo ou mais tarde, e à menor oportunidade esgueiram‑se daqui para fora, essa é a nossa força, conseguimos subsistir onde os outros fraquejam,
se bem que mal,
se bem que mal,
a mulher do Tereso, coitada, não tarda enlouquece, se é que não perdeu já o juízo, o aprumo foi‑se, aquela desleixada, e o instinto maternal também, não, esse nunca teve, Isidro, o menino enfezado, veio ao mundo indesejado, que é o maior mal que pode acontecer a uma criança, a Patrícia foi ingrata, recusou a generosidade de quem partilha o quase nada que tem, tens razão, Alicinha, a Patrícia foi arrogante, rejeitou o nosso apoio, desdenhou da nossa irmandade, julgou‑se mais do que nós, insistia em dobrar o lenço sob o queixo e em cruzar o xaile entre os peitos, não fez caso da ventania, riu‑se da gente, agora andraja por aí, as rajadas a farejarem‑lhe os farrapos, a enterrarem‑lhe destroços no cabelo, não a largam até lhe ensarilharem os passos e a derrubarem, e o menino a puxar por ela, mas o pó entra‑lhe nos olhos, e na boca, ela já não pede por ajuda, Marcelinha, porque nesta terra não se pode ter orgulho, não merece a nossa comiseração, chegou altiva e agora, de ombros murchos, parece que decresceu dez centímetros,
é gente de fora, lá das planícies, onde o ar se estagna, e é tão quente que o leite coalha nos estômagos, dizem que o Tereso já passou por aqui, com bicicleta de amolador da cidade, mas assustou‑se à vista da mulher tão escalavrada e do menino enfezado e virou costas, isso são patranhas, mulher, alguém o viu?, são os homens que contam, e tu acreditas?, criatura inocente, que alguém aqui possa chegar a Nadepiori sem nós darmos fé, nenhuma barata entra e sai de alguma frecha das nossas casas sem que nos apercebamos, nós que estamos treinadas desde pequenas a olhar para baixo e espetar os olhos para cima, a estar sempre vigilantes, a montar sentinela em cada cotovelo da aldeia, nada nos passa despercebido, isso são coisas que eles dizem, não ligues, Catarina, o Tereso é um fraco homem mas não é cobarde, um dia vai chegar e levar esta desgraçada para a cidade como prometeu,
dizem que está amanteado com a irmã dela, a cega tecedeira, não me acredito, ele vem buscá‑la, escutem o que vos digo, e o Isidro há‑de ir também,
o Simão é tão apegado ao menino, vai‑lhe sentir a falta,
lá está tu, Casimira, que não deslargas a tua lembrança do moço canhoto, isso que dizes é fábula, se ainda ontem o menino lhe alçou a mão do seu alpendre, todo ele olhos baços de poeira, e o Simão passou como se nem tivesse visto sombra,
é cruel de mais deixar uma criança de mão alçada, má rês esse moço, é o que vos digo,
se já não pões a tanta insânia freio,
não esperes de mim daqui adiante,
que possa mais amar‑te,
mas temer‑te,
que amor, contigo, em medo se converte,
que sussurras, Maria Alzira?,
nada, um poema,
de um homem antigo?,
sim,
mas nós, Maria Alzira, não deixámos a Patrícia para trás?, Casimira, lá estás tu eriçada de indignações, não sejas assim, tu não me afrontes, que foi ela quem se perdeu no caminho, quando nos voltámos já não estava lá para a apanharmos, e mais te digo, tu que estás sempre duvidando e criticando, pondo tudo em causa, o nosso esforço, a nossa cautela, os nossos amparos, foi a Alicinha, a quem o Tereso se tinha prometido, quem mais cuidou de abrigar a Patrícia e o menino, solteira para sempre e de coração destroçado, e mesmo assim a ingrata fez‑se de fidalga, gente de planície, acham que nos ficam devendo muito em probidade e honra, olha essa, mas se nós damos parte fraca, porque todos sabem que nos submetemos aos caprichos da tenenta, aceitamos o seu ódio e represálias, as suas regras e castigos, acatamos todas as suas desonestidades, é como termos uma doença, rapariga, mas a doença não nos tem a nós, cometemos vícios, estás falando verdade e mentindo ao mesmo tempo,
Casimira, pecamos e nos confessamos umas às outras todos os dias, assim nos penitenciamos e fica anulada a desvirtude, sofremos as represálias, sim, mas é o nosso modo de ir seguindo a vida, dissimulando fraqueza, ser mulher de têmpera é ter a valentia de um leão por baixo da lã do cordeiro,
diabo do pinto que ninguém lhe pôs a vista em cima, não me
consolo,
shiu,
está bem, já não aqui está quem falou, mas que era da minha criação,
vossemecês, novinhas, que zombam da gente, vão ver que irão acordar para melhores dias, elas intrometem‑se no nosso rebanho e saem tosquiadas, e têm os habitantes do quilombo por adversário, um bando de bravas que eles tomavam por apoucadas, aí quem sabe não somos nós que lhes invadimos as casas, arrombamos as portas, os despojamos de tudo o que nos agradar, deitando a quinquilharia sentimental pela janela, as fotos do casamento dos pais, a aliança, a medalhinha com o nome do filho, a afundarem no lodo, e vê‑los seguindo em fila, só segurando o que lhes cabe num braço, porque somos magnânimos,
e o que é mais é nosso,
e o que é mais é nosso,
o que é que ela está dizendo?, não entendo nada, mas a Maria Alzira lá que fala bem, ela fala bem porque estudou para professora na vila, mas depois veio socorrer a família quando ameaçaram Lençol de Telhados e aqui ficou, mas faz‑me um favor, nunca lhe perguntes sobre isto, sim, Luisinha, que isto fica só entre a gente,
esse dia está tão longe, tiazinha, está e depois?, o caminho que desce é o mesmo caminho que sobe, a nossa principal virtude é saber esperar, sem que ninguém perceba, estamos indolentes como o morcego, empoleirado nas traves de cabeça para baixo hibernado, quando os tempos virarem, viraremos com eles, apenas aguardamos o melhor momento, de resto estamos fazendo como esses ratos alados, carregando energias, dispensando o mínimo, estas são as nossas munições, só que eles não sabem que as temos,
pita, pita, pita, pita, pintinho…
porque gritas, Maria Armanda, acaso pensas que o pinto se esgueirou aqui para o depósito?,
porque não? É um pinto atrevido, o meu, pita, pita, pita, pintinho…,
mas se nos chamam as bruxas de Nadepiori, se só de nos olhar, nossos cabelos em cascata ao contrário, notamos repulsa nos olhares dos homens, ora se ainda estamos mais protegidas, deixá‑los falar, deixá‑los olhar, chamam‑nos bruxas por acharmos que não é poesia dizermos que é nossa pátria aquela onde o vento passa, e onde não deixam rastro as aves,
outras duas coisas te devo dizer, Casimira, que te estás fazendo esquecida, apenas nós fazemos as nossas regras, mais ninguém, e não somos, não, o maior alvo do ódio da tenenta, há alguém que ela odeia mais do que a qualquer habitante de Nadepiori,
quem?,
o filho,
o sétimo filho de sete irmãos,
tu sonhas, Juliana, ninguém odeia acima de todos os próprios filhos, antes sonhasse, que por sonhos se sabem as verdades completas, porque é Deus quem as sustenta, sussurrando para nos não acordar, Juliana tem verdade no que diz, conheci um homem que ia dormir para a igreja quando tinha de tomar decisões difíceis, casar ou não uma filha, matar um bezerro, iniciar a semeadura, na esperança de que Deus durante os sonhos lhe soprasse a decisão sábia,
mas e soprava?,
o quê?,

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