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Raízes - Deana Barroqueiro


A Professa

2020-03-20 11:03:49

1640 – Parte II – A Professa
Cap. XVII

Espelho de uma alma penitente, expressa em humanas e divinas palavras. 
– Verdadeira Relação dos sucessos de sua vida


Se a pena com que escrevo fosse tirada das asas de um Anjo, voaria longe, para o Céu, porém, na terra, não é permitido à voz feminina discorrer sobre a alma humana. 
Só aos homens é permitido voar alto. 
Só peço que quando, depois de morta, deixar tudo, tenha no Céu uma vida nunca morta e no mundo uma fama sempre viva. 
Em clausura, vivi sempre dividida entre o receio do presente e o medo do passado, dois extremos que têm combatido entre si para me causarem mais cuidados e maior sofrimento. 
Durante vinte anos, à força de penitências e orações, exercitei as virtudes da fortaleza, sapiência e temperança. 
Esmagando emoções, desejos e paixões. 
Esta tarde, o meu presente e o meu passado cruzaram-se no instante em que o vi, e prudência, constância e fé, tão duramente conquistados, estilhaçaram-se como fino cristal em mil pedaços. 
Cuidava ter vencido os meus demónios, contudo, a vitória coube ao desengano. 
Alguém disse que o amor se pinta despido para poder voar mais ligeiro, as suas setas são símbolos de tirania e as asas de inconstância. Os seus triunfos são erros e o seu Império engano. 
Embora o dano tenha sido feito há muito, e eu estivesse já de todo desenganada, vejo que afinal não achei aqui, como cuidava, remédio para o meu mal nem bálsamo que me sarasse a ferida. 
Estou morta mas sentindo. 
Se a esperança de vê-lo me matava tão-só por imaginá-la, agora que o vi foi como viver de novo para sentir a morte. Ou senti-la também depois de morta. 
Padecendo o mal d’ausente, cria que o remédio estaria em ver aquele a quem queria ou então fenecer querendo. 
Revivi os doces solilóquios que escreveu, os suspiros que amante articulou, as juras de amor que em doces incêndios exalou. 
Mas que raro tormento não quisera, quem julga só pior maior tormento, a lembrança menor de um fementido? 
Sou a que sou, devendo ser a que não sou. 
Embora reconhecendo que o bem terreno é espuma, cinza e ar, e quanto erra quem fia a sua dita em humano favor, busco ainda desditas. 
Amo precipícios, abraço sombras, procuro brenhas e sigo penas, olvidando a paz e buscando a inquietude. 
Caminhei pela senda do engano, sem dele me aperceber, tomando a aparência pela realidade. 
Ora sinto ser verdade, ora sinto ser mentira. 
Em mim só vive a dor. O prazer morre à nascença. 
O pranto em cada letra que escrevo não me consola, sendo maior o chorado que o escrito. Estes papéis que escrevo são os despojos da minha revolta. 
A dor que o coração chora e padece, não a quero mais pequena, não apetece ao meu coração alívio em tanta angústia. Reprimo as lágrimas. Não desejo esse consolo às minhas mágoas. 
Chorar, só se o choro for tormento e não desafogo. 
Dei-Te, Senhor, a primavera dos meus anos em plena flor, ao escolher esta vida de reclusa. 
Sem gosto na posse, nem alívio na esperança. 
Ajuda-me a vencer a minha fraqueza ou conduz-me ao porto da outra vida: deixa que se rompa o fio da minha existência, pois sinto há muito o gosto espantoso da morte. 
No Céu, lograrei eterna Primavera. 
Viver com ciúmes e penas, mal pode chamar-se vida. É ser, tão-só, morta-viva. 
Morra quem, amando tanto, mereceu tão pouca dita. 
Morra quem, idolatrando, só recebeu desdéns e mentiras. 
Socorre-me, Senhor, no transe mais penoso, livra-me da tormenta da minha alma. 
É delito grave preferir o mortal ao infinito. 
O que nasce em luz, fenece em fumo. Tudo na vida é pó, é nada; e menos que nada a minha vida. 
Antes que de desprezada, quero morrer de esquecida. 
Senhor, já não és Tu quem guia o voo da minha pena. No oratório não é para Ti que voam os meus pensamentos. 
Olho o Teu corpo na cruz e não é a Ti que eu vejo, nem ao Teu sofrimento. 
É o meu corpo nu e lacerado que está cravado no lenho. 
Sou eu a crucificada. 
A carne mortificada, ansiando ressurreição. 
A coroa de louros com que o mundo me incensou são os espinhos que me torturam os pensamentos. 
O abandono é a lança que me atravessa a alma e a solidão a esponja de fel que os meus lábios provam a cada dia que passa, em vez do beijo que apetecem. 
A nudez da Tua carne não me inspira piedade, apenas desejo. 
A minha humanidade não me permite renunciar ao amor. Nem que seja um instante cada dia. 
Esta noite não consigo dormir. Já esgotei o cálice do sofrimento até ao sangue. 
Não ouso ficar só. Menandra vem em meu socorro, sabendo quanto sofro. 
A semelhança cansa o amor, mas a amiga que vive em mim transformada sente e partilha comigo a tristeza, o pesar, o riso e o choro. 
Preciso de me ver num olhar que busque o meu com adoração, sentir o afago da sua mão, a carícia dos seus lábios, adormecer com o calor do seu corpo junto do meu. 
No amor de Menandra poderei descansar o meu coração. 

Comentários


A mostrar os últimos 20 comentários:

Luís Vendeirinho, 2020-03-21 18:07:43

E sob luz que no céu desperta serei queimada e incensada...

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