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Raízes - Ana Cristina Silva


Quando as luzes se apagaram

2020-07-27 15:08:41

Querida neta,

Descobriram a vacina. Ainda vai demorar alguns meses até fabricarem doses suficientes para inocular a população mundial. A marcha da escuridão deteve-se finalmente. Durante meses os pensamentos das pessoas estiveram essencialmente ocupados com o horror, demonstrando uma enorme incapacidade para se ajustar a um tempo em que nos foi interdito os gestos mais simples da humanidade. Os abraços foram proibidos, os beijos cancelados e o mundo foi sendo fechado lentamente desde que o vírus se disseminou. Neste tempo em que permanecemos em casa, vivíamos no interior de uma cela individual, na maior solidão. A mente de cada um recorria aos filtros possíveis para não desfalecer. A prisão deslocou-se das paredes e embrenhou-se na própria pele.
Espreito pela janela, lá fora continua tudo igual: a tarde está prestes a morrer e a penumbra desce suavemente do céu, dentro e fora de casa. Não há ninguém nas ruas, não se escutam vozes ao longe nem o ecoar de passos. Muito menos se ouvem risadas. A dor destes espaços vazios gera anseios que se infiltram por todo o corpo. A absoluta quietude do céu e o contorno cinzento dos prédios define a realidade pelos critérios de uma estranha ficção. Esta tristeza do nada não se define facilmente.
O caminho para a morte é plano, fino e cristalino como gelo. A hora de deslizar aproxima-se. Sou um homem velho que noutras circunstâncias poderia viver muitos mais anos. E ainda mais agora que a cura foi encontrada. Ontem, a vizinha de cima tocou-me à porta. Era uma mulher de quarenta anos, magra e seca, tinha uma cara comprida e estreita nas têmporas que nunca se iluminava num sorriso. Não a conhecia bem, nunca haviamos trocado uma só palavra, mas já a escutara proferir insultos e ameaças à vizinha do lado por causa das tropelias de um cão. Espreitei pelo óculo da porta. A imagem da vizinha assemelhava-se a alguém que vemos num ecrã, talvez por não estar com ninguém há demasiado tempo. Mais do que perigosa, pareceu-me miserável. A julgar pela forma como se encostava à porta, suspeitei que estivesse doente. No momento seguinte, deixei de a ver, apenas ouvi o estrondo de um corpo a cair. Nesse instante, o tempo dividiu-se em dois, mesmo não havendo maneira de se fazer um registo dessa bifurcação. De onde estava, dessa distância que separa o perigo da sobrevivência, podia ter escolhido viver, mas não pensei. Ou melhor decidi, porventura de forma insensata, que desejava continuar a ser um homem e não fechar o peito à dor alheia. Abri a porta e aquela vizinha, tão má e desagradável, acabou por morrer-me nos braços.
No principio do ano começou-se a ouvir-se falar do vírus em países distantes. O abismo entre a possibilidade de uma epidemia na Europa e o que veio a suceder depois revelou-se de tal maneira impressionante que, a princípio, quem manifestava receios era alvo de chacota. E, mesmo quando a doença já se aproximara, espalhando-se por países vizinhos, os medos eram considerados exagerados, até indícios de paranoia. Afinal, todos os anos morria imensa gente com gripe, eram inúmeros os velhotes que não resistiam às pneumonias. As pessoas demoraram muito tempo a reagir e só obedeceram à força dos factos quando já existiam milhares de mortos e alguns lhes pertenciam. Até aí os falecidos eram sobretudo números que apareciam num ecrã de televisão, números que se expandiam ainda mais na sua própria explosão, com uma incrível rapidez ao ponto de a morte ir deixando lentamente de gerar compaixão nos telespectadores. Consegue-se sentir piedade pela morte de um homem singular, mas o sofrimento por milhares de cadáveres é, na verdade, uma abstração. Além disso, as tabelas diárias com as estatísticas dos infectados não expunham os rostos de doentes congestionados pela tosse nem a maneira como a força dessas pessoas se concentrava tão só e apenas no esforço de respirar antes de serem entubados.
Declarou-se o estado de emergência, porém muitos habitantes do país continuavam a fixar a televisão como quem olha uma espiral de ficções, mantendo as suas rotinas inalteradas. Talvez fosse uma proteção contra uma irrealidade tão súbita, reinventando possibilidades para si que nada tinham a ver com a doença. Os passeios foram proibidos e determinou-se que as pessoas deviam privar-se dos murmurejares da natureza Mas, mesmo nestas circunstâncias, muitos armavam-se da decisão de deixar para trás os receios e, apagando da sua visão os mortos do telejornal, inventavam uma realidade liberta de terrores e sepulturas, continuando a sair de casa.
Comecei a saber o que era o medo bem antes dos outros. Talvez por ser diabético e idoso mostrava-me mais atento às notícias sobre a China e a Itália. Vivia só num pequeno apartamento, a minha antiga empregada – a quem eu continuava a pagar - trazia-me as compras a casa. Quando uma pessoa está sozinha e assustada fixa-se às pequenas coisas – o almoço, a resposta a emails, o toque do telefone - para não permitir que os dias se transformem numa amálgama indiscriminada de horas. Nunca deixei de tomar banho, de fazer a barba ou de mudar de pijama, mas a desordem e a anormalidade tomaram conta dos meus gestos. A loiça na máquina e o saco do lixo meio cheio eram a única prova que o dia havia decorrido e nenhum acontecimento evidenciava que aquele fora diferente do anterior ou do que viria a seguir.
Para que o horror se tornasse ainda mais perfeito o tempo parecia não ter janelas e da minha casa, mas também da dos meus vizinhos, não se conseguiam espreitar horizontes. A dor passou alimentar todas as palavras que trocava com a tua mãe e com alguns amigos por Skype ou telefone. Deixou de haver outro assunto e a epidemia passou a ser a medida de todas as coisas, outras conversas tornaram-se quase condenáveis perante a dimensão da tragédia. Há medida que o isolamento prosseguia os gestos quotidianos foram-se afastando da vida, imobilizando a cabeça e o corpo numa espera cheia de incertezas quanto ao próprio extermínio. Mas ninguém verdadeiramente consegue conceber a própria morte, porque não nos imaginamos a ser uma recordação na mente de quem amámos ou um nome oco na cabeça de futuros netos. Muito menos mera matéria degradável.
Via diariamente ambulâncias chegarem a prédios vizinhos. Vinham também durante o dia, porém, era sobretudo no abandono solitários da noite, nesses momentos em que o medo roubava toda a claridade, que a luz dos pirilampos dos carros do INEM mais me aterrava. Para evitar regressar a um mundo que estourou, escrevia poemas. Fui poeta, sabes? Evidentemente, não era a minha verdadeira profissão. Dividi e compus palavras, escrevi vários livros, alguns dos quais, ganharam prémios. Para tranquilizar as forças de um receio não contido, procurava nas palavras a recordação de um abraço que me pudesse restituir o mundo. Versos que mudassem a Terra de lugar, deslocando a aurora e o poente, poemas que viajassem e trouxessem novas paisagens ao tempo. Mesmo esperando a morte, mesmo tendo a noção de que a poesia é coisa fortuita e que não me irá salvar, não desisto de fecundar a esperança procurando-te e despedindo-me com palavras. Ainda estás na barriga da tua mãe. Sou o teu avô e quando cresceres, o mundo ter-se-á reconciliado com a esperança e, deste ano terrível, restarão apenas memórias imobilizadas na angústia dos mais velhos. Nunca te irei conhecer, mas promete-me que terás um sonho e com esse sonho a transbordar esforçar-te-ás por melhorar o mundo.

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