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Raízes - Lídia Jorge


METAMORFOSE

2020-12-24 12:35:25

Quando fiz treze anos passei a interessar-me pelos bichos da seda. Passava horas debruçada sobre uma caixa de cartão onde uma vintena de lagartas tosavam folhas de amoreira. Vi como cresciam, engordavam, iniciavam o casulo, como se escondiam no seu interior e passado algum tempo, de lá saiam borboletas esbranquiçadas que começavam a pôr dezenas de ovos. Assisti ao eclodir dos ovos e ao aparecimento de novas lagartas. E o ciclo recomeçou até que de novo a caixa se encheu de muitos mais casulos, tantos que levei a caixa para o Liceu para mostrar ao professor de Ciências Naturais. O professor aproximou-se da minha caixa e perguntou-me – Das várias formas por que passa esse animal, qual preferes? Eu respondi – Prefiro a lagarta. O professor de Ciências respondeu-me – Fazes mal, a melhor fase desta metamorfose são os vestidos de seda. 

Passei muito tempo até deduzir o que me queria dizer aquele professor de Ciências Naturais. E hoje de novo penso nele e na sua resposta quando me perguntam o que acho que vai acontecer ao mundo e eu não sei responder porque o presente, por mais informação que exista sobre o momento que passa, tem sempre a forma de um casulo. Este nosso presente vergastado pela pandemia tem o condão de esclarecer o caminho do passado recente, mas dá poucas indicações sobre o que vai ser o futuro. Do passado, salta à vista que a exploração sobre os recursos da Terra, que iniciámos no século XVIII, acabou por ter dimensões assassinas no inicio do século XXI, e agora que o Coronavírus veio desencadear a demonstração do erro, se uns acham que se deve parar o processo, outros, muitos, entendem que o retrocesso se torna impossível. Como se o desastre iminente fosse invencível, e estivesse escrito na natureza da nossa espécie como um destino. 

Na verdade, quer queiramos quer não, o espectáculo desenrola-se diante dos nossos olhos como num filme. A Terra ensina que não se importa connosco. Desiluda-se quem julga que a Natureza tem uma alma caridosa para os homens só porque nos dá animais, chuva, fruta e legumes. Não é verdade. A Terra permaneceu insensível quando despareceram os grandes répteis, e depois os grandes mamíferos, e assim será connosco. A Terra gloriosamente azul continuará a rodar pelo Espaço quer nós estejamos sobre ela, quer não estejamos. Nos últimos meses, temo-lo confirmado. Por entre os aviões parados nos aeroportos, os pássaros e os animais selvagens, como as lebres e as raposas, passeiam e fazem ninhos. As árvores crescem na direcção das casas e dos arranha-céus. Este é o paradoxo que temos por resolver - Nós somos filhos da Terra mas a Terra não é nossa mãe. Custa muito dizê-lo, mas nós somos bastardos da Terra. 

Lamento que as crianças de hoje tenham de empunhar pelas ruas cartazes dizendo que não há planeta B. Sem o saberem, que desamparadas estão as crianças! Marte encontra-se demasiado longe, e os veículos de Elon Musk, não sabemos se lá chegarão. Nós, os da minha geração, estávamos aconchegados aqui, nos diferentes continentes da Terra, e a definição de Carl Sagan, de que somos pó das estrelas, não passava de uma metáfora. Agora ela passou a ser uma expressão da consciência. Às nossas crianças, pela primeira vez, dizem-lhes que são apenas pequenas partículas dos astros. 

A minha pergunta é o que se pode dizer às crianças para que possam sentir-se sentadas sobre alguma coisa humana, segura e coerente. O que lhes podemos dizer quando as relações de trabalho se desmoronam, a cultura tecnológica incita loucos a dirigirem as nações? As democracias se deixam corromper por extremistas de instintos sanguinários, e nós nos rodeamos de montanhas de objectos inúteis, produzidos cada vez em maior quantidade, e cada vez por menos mãos humanas, através da destruição dos recursos naturais? 

O que lhes podemos dizer? Se eles tiverem treze anos e possuírem uma caixa de cartão com casulos, podemos dizer-lhes que o objectivo é criar uma peça de seda tão ampla que cubra o novo mundo com a utopia de uma nova fraternidade, mais justa, mais pacífica, sem mentira e sem sangue, valorizando a partilha e a beleza. Esse será o nosso vestido de seda, tecido pelas mãos daqueles que, no dia de hoje, têm treze anos. 


LJ. 29.11.2020 
P/ France Culture 

Comentários


A mostrar os últimos 20 comentários:

Sérgio Kehdy, 2021-01-10 14:40:50

Excelente e de grande beleza. Vou divulgar.

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