loading gif
Loading...

Raízes - Luís Vendeirinho


A ARCA DA ALIANÇA

2021-01-25 09:47:09

Já lá vai muito tempo, entretanto evaporado, num ano com os doze meses que nos foram atribuídos para provarmos as alegrias como oásis no tédio, que assinalei a data precisa sobre uma lista de compras e a colei sob o forro da gaveta da minha escrivaninha. Não se tratava de um rol qualquer, nem de uma gaveta escolhida ao acaso, porque sempre que eu leio esse papel, ao abrir a dita para lhe mudar o revestimento, tudo se transfigura sobre a minha pele, ante o meu olhar e no íntimo de todos os demais sentidos de criatura em trânsito terreno. E, se não fossem verdadeiras as memórias desse dia, mas o fruto germinado da sementeira da imaginação, bastava a anotação no papel amarelecido para despertar a luta desigual contra as maquinações do mundo e a conspiração contra a inocência perdida.

Contra medos e os seus pares, como a superstição, a ignorância e a solidão, sempre cri que a arma da vontade, um bem cuja força se manifesta no manejar entre o mais profundo silêncio, dito segredo, não deixa brecha no corpo e no espírito. Foi assim, de boa vontade, que na madrugada fui atender a uma luz acesa na sala de casa, porventura esquecida antes do recolher. Sentado, à minha espera, estava alguém que reconheci de imediato e cuja imagem inspirou a ideia de que seria um prolongamento do sonho interrompido. Tinha um sorriso meigo nas feições, tratou-me pelo nome e fez o convite para conversarmos. Era o João Villaret.

A primeira ilação que retirei dos momentos, dos minutos, das vidas em que estivemos cara a cara, foi a de que a lógica do corpo é irmã da lógica do espírito, uma só com raciocínio difícil de esmiuçar nas suas raízes e de entender nas ramificações. Portanto foi espontâneo o acordo em ser a minha pessoa a fazer perguntas, apesar de ambos bebermos da curiosidade. E só me ocorreu saber, ou confirmar, se ele estaria no Céu para lhe desvendar os mistérios, entre os quais os dos inquilinos que fossem do meu interesse familiar. Mas não, pois era a outras matérias que haveria direito.

A noite fazia-se do sono dos mortais, do silêncio das ruas, do luar e da sua sombra, da explicação do inexplicável. E o meu guia tratou das palavras que, adormecidas, viriam a despertar no tempo predestinado. O Céu era um nome sem rosto, uma invenção por realizar, um consolo para as humanas dores. No Céu haverá a antecâmara de uma realidade inexpugnável, um palco onde o sonho se torna enfermaria. Eu ouvia enquanto ele dizia, sem a noção do quando, do onde, do como. Na enfermaria haverá espaço para o recobro dos traumas, do saber, da pobreza, das feridas, da fé, do poder, do ódio, da bondade, da arte, do amor, da indiferença. Só então, quando for desatado o laço, virão os guardiões do Destino abrir a porta.

Era manhã quando, trazido pelo vento, o sino soou. O guia ergueu-se do seu assento e foi-me amparando até ao leito onde regressei ao sono. Nas voltas da casa, para mais um dia que despontava e entre a percepção nebulosa da minha visita, dei com o papel sobre a arca onde guardava velhos trajes de família. Era uma nota de despedida assinada JV. Antes que a besta me engolisse, datei-a.

Noutro dia, a campainha da porta soou. Eram uns homens altos, fardados, inchados de autoridade, que irromperam pela casa com um mandado de busca. Foi mais o desarrumo do que o estrago. Revolveram tudo menos o que faltou: o papel sob o forro da minha escrivaninha. Ao saírem, um deles prometeu que iriam regressar, com motivo ou sem ele. Eu, adepto de que a memória é um reduto inviolável da liberdade, decidi pegar num fósforo, riscá-lo e deitar fogo à prova da minha insanidade.

Agora, sou assíduo em rever a declamação do meu amigo, como a da Carta de Amor do Régio.

Comentários


Ainda não existem comentários para este questionário.

Mais raízes

Voltar

Faça o login na sua conta do Portal