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Raízes - Miguel Real


PESSOA & SARAMAGO

2021-10-25 09:16:54

Pessoa e Saramago podem ser figurativamente representados como as pontas de uma corda esticada, tensíssima, que foi a literatura portuguesa ao longo do século XX. Entre ambos, o labirinto de uma centena de autores, que constitui a substância da literatura portuguesa neste século. Pessoa, no início da corda, com um projeto literário simultaneamente profano e sagrado, de dimensão sobretudo poética; Saramago, no final, com um projeto social e ateu, sem, porém, olvidar uma dimensão espiritual e, no final da sua vida, humanista. Ambos, com oficinas literárias diferentes (Pessoa: a heteronímia; Saramago: o autor-narrador), interrogam e problematizam os fundamentos religiosos e filosóficos da nossa civilização, propondo uma outra (Pessoa: o Quinto Império; Saramago: o comunismo e, a partir da década de 90, o humanismo, cruzamento da valorização dos direitos humanos e dos direitos ambientais).

Porém, ainda que firmados em dois projetos literários diferentes, em dois tempos mentais diferentes, quase antagónicos, se não mesmo contraditórios, duas caraterísticas são comuns a ambos os autores:

  1. - A total transgressão dos códigos estéticos do seu tempo, balizando um novo vinco na história da literatura; ambos resumem indelevelmente o século XX;

  2. - Uma representação absolutamente original da língua, do homem e da sociedade - Pessoa, da crise do sujeito literário e existencial do princípio do século, respondendo com a originalíssima multiplicação da identidade autoral e narrativa; Saramago, da situação crítica do mundo ocidental no final do século, postulando uma escrita que funde o romance com o ensaio, uma escrita que não intenta apenas revelar o mundo, mas sobretudo, usando a sua visão pessoal do mundo, problematizá-lo, complexificando o estatuto do narrador, incorporando neste o autor. Por respeito ao seu pensamento, quando falamos de narrador referimos sempre “autor-narrador”.

Pelo primeiro ponto, efetuam uma rutura com o passado da história da língua e da literatura; pelo segundo, assumem ambos uma nova visão da essência da humanidade do homem representada esteticamente pela literatura. Nenhum outro autor português do século XX atingiu estes dois patamares com o mesmo nível de excelência, dialogando com os grandes autores do passado português, como Camões, padre António Vieira e Eça de Queirós, e os grandes autores internacionais do século XX, como Kafka, Joyce e J. L. Borges, preparando e exigindo, para o século XXI, uma nova literatura.

Miguel Real

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