Raízes - Miguel Real
O M E D O
2022-01-19 10:24:26Da escola, voltei para casa a relembrar a vida do meu amigo. As lutas estudantis na princípio da década de 70, as reuniões nas caves do Faculdade de Medicina, a distribuição de panfletos nos corredores da universidade contra Marcello Caetano e a Guerra Colonial. Eu tive sorte, escapei entre os pingos da chuva, ele não, foi preso pela PIDE (DGS) à saída da cantina velha, metido num carro escuro e levado para a António Maria Cardoso, raparam-lhe o cabelo (fazia parte das técnicas de humilhação), torturaram-no (seis dias seguidos em pé sem dormir), ele não denunciou os camaradas da faculdade, não falou, foi levado para a prisão de Caxias e lá esteve a apodrecer até ao dia 26 de abril de 1974. Se ele tivesse falado, eu teria sido preso. Senti então o medo a ferver a na pele, a encarquilhá-la.
Agora, voltou a mesma sensação. Senti-a a atravesar a serra. Não sei como foi, senti que a serra nada queria com os humanos, senti-o. Uma, duas vezes por ano, os sintrenses percebem-no, é quando tudo o que pode vir a correr mal, corre mesmo mal, quando do Atlântico sopra uma ventania danada, encaracolando as copas das árvores, as ondas alagam a Praia Grande até ao pontão, recusando a presença humana na areia, a humidade escorre das paredes como baba de choro, o frio gélido racha a pele, que, defendendo-se, se encarquilha, o cume da serra não se avista, os penedos parecem volatilizar-se, o sol esconde-se, deixando à vista um disco de prata brilhante, as lagartixas e as salamandras abrigam-se sob as pedras, buscando o fundo da terra, os coelhos refugiam-se nas luras, escavando-as, as toupeiras, incrivelmente, vêm à superfície, as rãs e os sapos acoitam-se no lodo dos charcos, os pardais não chilreiam ao crepúsculo da manhã e da tarde e os melros evaporam-se, os cavalos relincham à beira dos muros de pedra das quintas, de olhos desorbitados, como se quisessem avisar os passantes que se devem recolher, os burros que pastam no termo de Colares zurram repentinamente uma sinfonia de tubas desafinadas, os peixes da ribeira correm desordenadamente sob as águas, buscando reentrâncias, onde se camuflam, os patos ocultam-se aos magotes sob a ponte da Várzea, os pombos ruflam as asas voando para antigos pombais arruinados e os cães, esses amigos do homem, nem a voz do dono nem a fome os forçam a sair da casota, então, o sintrense protege-se, cuida-se, sabe que o mal está prestes a fazer uma das suas aparições anuais, se for homem tira a ferradura ancestral da prateleira e pendura-a à entrada a casa, como o bisavô fazia, se for mulher tira a imagem da Santinha do Cabo, conservada numa caixa de sapatos na despensa, reza nove ave-marias e coloca-a no nicho da parede da porta principal, homem ou mulher, se puder, não sai de casa, nem às compras vai, se sair não vai de carro para Lisboa, vai de comboio, e nunca na primeira carruagem, durante o dia algo de mal vai suceder, e se não for hoje será amanhã, e se não for a este é àquele, um vizinho, um parente, um amigo, o mais certo é no fim do dia ou da semana ou do mês alguém estar morto.
Eu tinha a comprovação experimental, se assim posso dizer, de que os sintrenses iam entrar numa fase de adversidade, iam ficar às avessas, duas provas: primeira, ainda nenhuma andorinha e nenhum andorinhão atravessara os céus de Colares, o beiral da minha casa, já entrado em fevereiro, princípios de março, mantinha-se incólume, desabitados os ninhos dos anos anteriores, as andorinhas andavam a evitar a minha terra, o meu inato otimismo ditava-me que, porventura, teriam escolhido outras; segunda, as abelhas tinham desaparecido, era o que me fazia mais impressão, não ouvir o zumbido do seu voo, ter parte da quinta cheia de azedas e nenhuma abelha para lhes sugar o pólen. Outra prova, os morceguinhos não saíam à noite dos seus esconderijos escuros junto aos muros e aos marmeleiros, raramente os tenho visto quando à noite dou um passeio pela quinta.
Depois da primeira notícia no Público digital, provando que o vírus aterrara em Portugal, comecei a senti-lo mais sólido, ao medo, era uma sensação pastosa, sem causa visível, que bloqueava os passos e me lançava o olhar inquieto em todas as direcções, uma ameaça obscura, vinda de lado nenhum e de todos os lados, desta pessoa e daquela, e daqueloutra, tão frágeis como eu, nada que os indiciasse como ameaçadoras, apenas por serem pessoas, possíveis portadoras da besta, assim chamava ao vírus perante os alunos, pois, sem face visível, assumia-se como todas as faces do mal, matava, atacava indiscriminadamente, roubava o trabalho, fazia sofrer física e psicologicamente e separava os homens dos homens: era a reencarnação da antiga Besta do Novo Testamento e dos terrores medievais. Nesses dias, afligido, com 65 anos bem-feitos, tirei da estante o meu padre António Vieira para aplacar o desassossego, e, consciencializando a brevidade da vida, e que sempre a morte espera, recordava uma passagem do seu Sermão da Ressurreição de Cristo, pregado na igreja de Nossa Senhora da Graça de Belém do Pará no dia de Páscoa de 1558, 21 de Abril:
“Suponde que estão três homens condenados à morte e que mandou el-rei que um o lançassem ao mar na altura de Cabo Verde, outro na Linha [Equador], outro no Cabo de Boa Esperança: mas qual houvesse de ser o primeiro, o segundo ou o terceiro, que o levasse quem havia de fazer a execução em uma carta fechada, a qual se abrisse naqueles mesmos lugares. Dizei-me: haveria algum destes homens que em qualquer altura destas não ficasse tremendo? Pois o mesmo se passa connosco. Todos estamos condenados à morte: uns para o Cabo Verde, que são os que morrem na flor dos anos; outros para a Linha, que são os que morrem na meia-idade; outros para o Cabo de Boa Esperança, que são os que morrem na velhice. Mas em toda a parte havemos de ir com grande medo, por não sabermos quando chegará o nosso Cabo. Pois para isso preparemo-nos logo em saindo da barra…”
Acalmava-me, Vieira tinha este prodígio, entusiasmava-me e acalmava-me ao mesmo tempo, eu entrava no carro, abria o portão automático e saía para a escola, não com menor medo, mas com este mais apaziguado. Se fosse hoje o meu “Cabo”, pois seria, e, mal entrava na estrada, em momento de quase desespero, dizia, todos temos de morrer um dia. No meu caso, só lamentava não ter acabado, meu deus!, nem a meio ia, o meu Saramago.
Em Colares, eu não sabia donde ele vinha, mas o medo penetrava pelas frinchas das casas, das lojas, dos minimercados, emergindo dos subterrâneos, das cloacas dos esgotos, das fossas das moradias, da escuridão dos túneis, dos regueirões, dos boqueirões, das grutas dos alcantilados da serra, das minas de água que a atravessavam, das rochas húmidas e irregulares das praias, das raízes das árvores, dos caboucos das construções, da terra mal lavrada, ostentando minhocas tragadas pelo bico das gaivotas, dos porões de carvão, dos socavãos de lenha, das lamas dos açudes, das represinhas de água, ressoou por Sintra o medo, mudo e incorpóreo, invisível, penetrou nas igrejas, nas ermidas, nas capelas, nos conventos, na Misericórdia também, no edifício da Câmara, o velho e o novo, invadiu as casas, subiu de elevador ao cimo dos prédios da Estefânia, da Portela e de Ouressa, tornou-se aterrador, os sintrenses, urbanos e rurais, sentiram o medo encarquilhar-se na pele, liquidificar-se nos olhos, invadir as narinas, transformar-se em saliva da boca, em espuma seca nas comissuras dos lábios – e todos se afastaram de todos, tinham medo dos espirros do outro, pais afastaram-se dos filhos e netos dos avós, homens de mulheres, jovens de velhos, crianças de idosos, o medo era uma película ranhenta de baba, pegajosa de cuspo, um parasita, tornara a boca dos nossos beijos num horrendo instrumento de morte, as mãos não se davam, ninguém se cumprimentava senão de longe, eu passei a usar máscara na rua, no supermercado, na farmácia, na sala de professores, um filtro que me protegia como um elmo de ferro protege a cabeça do guerreiro, uma máscara cirúrgica, presa com quatro atilhos à nuca, na minha escola fui o primeiro professor a dar aulas de máscara, fazia-me sentir um espectro, um avejão, uma assombração, mas não queria que o meu “Cabo” chegasse depressa, antes ridículo que morto.
Li na aula um texto de uma carta do padre Nunes da Rosa, da Ilha do Pico, Açores, que o meu amigo Manuel Tomás, da Madalena, me enviou:
“O que de mais importante tenho a dizer-te é que de 21 de Dezembro a 8 de Janeiro, último [1920], foi a nossa vizinha vila da Madalena talada pela irrupção de uma moléstia pestosa, que nesse curto lapso de tempo roubou à vida 15 pessoas, todas vitimadas por contágio directo e sem que a ciência as pudesse salvar. O facto consternador sobressaltou toda a ilha, como é natural, e a autoridade superior do distrito fez com que o governo decretasse o isolamento do Pico, o que também é curial. Mas o interessante é que toda a gente se julgou habilitada a explorar o pânico público em favor das suas comodidades, conveniências e desvarios. O serviço de correio deixou de se fazer até do Faial para o Pico, deixando de circular a mala entre os diversos concelhos desta ilha. No limite dos concelhos, limítrofes da Madalena, fizeram-se muralhas e cavaram-se fossos, a atravessar as estradas, sob o olhar complacente das autoridades administrativas. Cada freguesia agarrou na ideia de se defender da sua vizinha, colocando nos caminhos vigias para obstar o trânsito de estranhos, derrubando os postes telegráficos e espalhando pedras no pavimento da via pública. Numa das nossas freguesias do sul cortaram-se as linhas do telégrafo, por mor dos telegramas que “poderiam ir empestados”.Um cavalheiro da sede do concelho, que conseguiu chegar à fala com pessoas dessa paróquia, referiu-me que ficou espantado do espectáculo que se lhe deparou: os parlamentares da localidade, cerca de sessenta homens, mulheres e crianças, que guardavam a estrada armados de cacetes e foices, apresentavam-se munidos de peneiras, por trás das quais falavam para o interlocutor, à respeitável distância de 20 metros! Nalgumas freguesias, diz-se, chegaram a organizar-se bandos munidos de latas e tambores para afugentar os melros que voavam das bandas da Madalena. E no meio de toda essa desorientação o comércio esfregava as mãos, exultante, triplicando o preço dos géneros! E a gente que não perdeu o sangue frio, os que serenamente encaravam as coisas, “olhavam em redor e não viam ninguém” – constante a triste falência de homens, de cérebros e de mentalidades, nos diversos graus da hierarquia social. Sim, porque no meio do que se acaba de passar contam-se pelos dedos as cabeças que ficaram e apareceram no seu lugar, deixando eu de te referir, por decoro e caridade, muito facto abonativo da oca fatuidade dos melros que nos momentos tranquilos impam de saber e de valia no meio do pobre povo a quem iludem com descarado cinismo. Mais uma vez, no meio da debandada geral, tranquilo e sereno ficou o recinto do santuário, onde as almas fiéis se acercaram de Jesus e onde os bons pastores se fizeram ouvir do seu rebanho. O padre, digamo-lo, foi a figura serena que se ergueu no meio do povo como conselheiro e amigo fiel, evitando excessos e abusos que ninguém sabe que consequências poderiam ter, diante da passividade das próprias autoridades. Se até o único administrador do concelho que se soube manter no seu lugar e salvaguardar o prestígio das leis – foi um padre!”
(in M. Tomás, Nunes da Rosa - Estudo e Antologia, Companhia das Ilhas, 2013).
Disse aos alunos: em grande escala, é o que nos vai acontecer – o medo, infiltrando-se pelas frestas das portas e pelos receios da mente, isola cada um de todos na prisão dos seus temores a guardar as entradas da nossa casa, soltamos o Cerbero, o cão de três cabeças, não vá um forasteiro, portador da Besta, invadir-nos o espaço, hoje não tiraremos cacetes e foices detrás da porta, mas brandimos palavras de exclusão, cercamos o nosso território com uma jaula de ferro, defendemos com as armas do silêncio e do isolamento a nossa família, o nosso andar, o nosso prédio, munir-nos-emos de “peneiras” que são hoje as nossas máscaras. Devemos lutar contra o vírus que aí vem, que já cá está segundo vozes pessimistas, com a força da nossa esperança, como vimos numa das aulas passadas.
Era o que podia fazer para começar o dia de aulas, não deixar os meus alunos abandonados ao medo, adolescentes com a força da vida nos braços e na cabeça, “primavera da vida”, como escreviam os românticos, verdadeiramente uma primavera cheia de tempestades invernos, mostrar que o que iríamos passar, já estávamos a passar, fora vivido por outros em outros tempos e que a grande diferença do passado residia na força da ciência contra a ignorância daquela população da Madalena de há cem anos, ou contra a população das “ilhas” do Porto que expulsou da cidade o “higienista” Ricardo Jorge.
Hoje o vírus é a peste dos antigos tempos, lembrei a todos que o campo da feira dominical de São Pedro fora uma gafaria durante a Idade Média, cercada de muros, para onde expulsavam de Lisboa os gáfaros, constituía a área mais negra e lúgubre de Sintra, por onde ninguém passava, apenas alguns beatos e uma Irmandade, que lá ia deixar, a distância conveniente, sacas de pão velho ao lado da fonte natural, invocava-se e então a piedade de Deus e a bênção de São Lázaro (ainda lá está a capelinha a este santo), hoje temos o grosso escudo da ciência a proteger-nos e apontei para a minha máscara, os gregos, os romanos, os medievais, os modernos não o tinham, são os últimos duzentos anos de história a proteger-nos, se o coronavírus nos faz guerra, a natureza a conflituar connosco depois de tanto a devastarmos, a nossa única arma defensiva e ofensiva é a ciência. Uma aluna interveio, não devíamos excluir a espiritualidade, até a religião, as pessoas mais velhas precisam dela, outro prosseguiu, sem a religião, lá em casa, estaríamos todos na mão do diabo e o vírus teria vitória assegurada. A religião dividiu a turma, a maioria dos alunos há muito que se desinteressara da igreja, não que fossem ateus convictos, apenas que era um assunto para os quais a vida comum se tornara indiferente, um dos alunos falou nos sacerdotes como seres mascarados a falarem uma língua morta há quinhentos anos e actuarem num teatro de pedra enfeitado de estatuetas, eu tentei pôr um pouco de ordem, disse numa voz mais alta do que o razoável, quando falamos de espiritualidade, de religião, falamos de crenças e opções individuais, que devem ser respeitadas, quando falamos de lutar contra um vírus maléfico falamos da força coletiva da ciência, respeitada pelas provas visíveis que nos tem dado, transformando a esperança média de vida do europeu de 59 em 81 anos, se vocês tem avós, a maioria só o tem porque a ciência atual o permitiu, se a mortalidade das crianças é pequena nos primeiros anos de vida é porque a ciência o permite, um aluno adiantou, o neandertal e o primitivo homo sapiens deve ter desconhecido a palavra avô, muito poucos deles ultrapassavam os quarenta anos, só uma minoria muito, muito minoritária.
Miguel Real
Mais raízesVoltar