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Raízes - Patrícia Reis


A Nossa Novela

2010-08-18 00:00:00

Ia agora começar a escrever, palavras só para ti. Agora mesmo. Desisti por fraqueza, compreenderás mais tarde, estou certa. Corro como uma cega nas palavras e não tenho pressa de chegar seja onde for.

Ia agora começar a escrever, palavras só para ti. Agora mesmo. Desisti por fraqueza, compreenderás mais tarde, estou certa. Corro como uma cega nas palavras e não tenho pressa de chegar seja onde for. Não há palavras para ti. Secaram-se na angústia de me explicar. Talvez seja melhor começar pelo início. O início é sempre um momento de verdade, algo louco, imprevisto. Como um fado que se canta sem se saber a letra, na comoção de reconhecer algo sem, ao mesmo tempo, conseguir dizer o poema e a sua intenção inteira. Todas as histórias de amor, como as cartas, já se sabe, têm uma dimensão ridícula, sobretudo quando terminam. O fim do amor é dispensável e não tem possibilidade de se alcançar no segundo exacto da sua morte. É uma ideia errada, repara, eu sei exactamente quando nós morremos. É uma imagem fixa que guardo. Não como uma fotografia, porque há o som e o estremecer do coração, coisas de mulher, dirás. Seja. O final nunca é só triste, é o princípio de uma luta e isso eu não sabia. O destino é ou não é o que se quer? Pouco importa. Passaram-se anos desde que o amor nos morreu.  Se não foram anos, parecem-me e isso, o peso do tempo, a lentidão mortal de não conseguir sair daqui, torna-me prisioneira disto e, logo, de ti. Fiquei à espera de algo; de uma viragem do vento, um encontro mais feliz. O encanto que existia não o encontro agora. Seja onde for. Vejo-me a minguar, como diria a minha avó. Já te contei da minha avó? Talvez não. Não tivemos tempo para tudo, afinal. Era mestre na arte de soprar o vidro, tarefa nada habitual nas mulheres, um ofício de homens que herdou do marido. Ainda me lembro das coisas extraordinárias que saíam desse sopro controlado e sempre invejei a delicadeza do gesto. Não queres ouvir nada disto? Eu sei. Vamos voltar ao início, como prometi.
 
Trazias um livro de poemas contigo. Era uma ousadia quase feminina, se pensares. Sim, tinhas ainda um molho de jornais, incluindo os desportivos. Perguntei se era literatura de fim de semana e tu sorriste com o rosto todo. O amor começou ali. Colegas são as putas, dizias tu. Portanto, éramos parceiros de amarguras num open space sofisticado, empresa moderna com cestos de fruta para os empregados. Isto basta como definição porque o que fizemos, uma vida inteira, dia atrás de dia, pouco nos importava. Pelo menos era o que eu achava então. O emprego pagava os iogurtes e cumpria a função social à qual estamos obrigados. Nada mais. Estava longe de suspeitar que querias mais e que tinhas em ti a ambição terrível de subir, subir até ao pódio do poder que pode desfazer as cores da realidade. O poder pode ser um vício, sei-o agora. Vi-te em conversas formais, repletas de indirectas e subserviência, conversas que te levaram ao clube dos homens, directo a assessor da administração e, depois a director geral. Foram anos, dirás, já sei que sim. Porquê invocar este passado e ser sincero? Porque no começo é importante dizer tudo e no fim é urgente.

Numa noitada, sozinhos, experimentámos a alcatifa do gabinete do chefe. Olhei-te nos olhos, directamente para dentro de ti, invadindo o teu corpo sem pudor ou vergonha, disposta a tudo por estar ali, no momento, encaixada em ti, na perfeição; sentindo uma pertença que nunca antes me chegara. Não, não era a minha primeira vez, até nos rimos disso, uma mulher com quarenta anos, mesmo que recatada, tem aventuras ou, no mínimo, um passado erótico. Não inquiri sobre o teu por o conseguir adivinhar sem esforço. Era público. Podia contar, pelo menos, doze relacionamentos que nunca escondeste. Por estares ali, no mar azul da alcatifa, pensei que seria o início de uma relação.  Ingenuidade? Não. Quando se ama crê-se. É mesmo um princípio fundamental, acreditar que somos no outro o tudo e o nada. Pode ser efémero e ilusório, já sei, pode até durar uma noite, mas é assim.  Nada disto te importa agora. Eu sei. Vivo eu aqui nesta redoma de memorias inúteis apenas por vazio. Toda eu estou vazia, o meu corpo mirra, as peles secas e o cabelo sem brilho. Uma velha. De certa forma. Ser velha antes de ser velha é um costume meu. Desde miúda. Porque me apaixono sempre até ao fim, com tudo o que tenho e, quando me vejo só, não me encontro, pareço um daqueles bonecos dos desenhos animados, há rastos de mim que ficam pelo caminho, como riscos de todas as cores. É uma pena, dizem-me. As mulheres devem, leio por aí, ser independentes e autónomas. Dá-me vontade de rir, sabes? Por ter sido educada para casar e ter filhos, para me organizar sempre em função de uma relação. Não ter alguém na nossa vida é uma diminuição do nosso papel no mundo. O amor agora querer-se rápido e eu entendi isso no dia seguinte, quando chegaste com o livro de poesia e os desportivos, sorriso aberto. Só faltou chamares-me colega. Puta senti-me de imediato.

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