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Raízes - Lídia Jorge


QUEM GUARDARÁ OS LIVROS

2013-05-06 00:00:00

Dá que pensar que um dos temas mais abrangentes e comuns a todas as Literaturas Contemporâneas, hoje em dia, seja o próprio livro em si mesmo, promovido a personagem e móbil de infinitas ações ficcionais.

Refiro-me ao livro enquanto pequena escultura feita de folhas escritas, unidas umas às outras por um dos seus lados, colocado no colo de alguém, em diálogo com o seu leitor e o seu autor, face ao seu destino como entidade, sujeito e objeto de um mundo de sonho. Em torno deste tema a variedade é infinita. Há livros sobre o livro que alinham com a forma solene inventada por Borges, metáfora antecipada do que viria a ser o livro infinito digital, outros aproximam-se da biblioteca inventada por Umberto Eco onde todas as aventuras do saber são possíveis. E há formas menos densas como seja a fábula ternurenta e cómica inventada pelo americano Sam Savage, com Firmin, a ratazana que ao comer os livros ia incorporando o que deles havia de humano. Ou a memória da perseguição durante a Guerra Civil de Espanha, recriada pelo galego Manuel Rivas em Os Libros Arden Mal. Ou o livro encarado como objeto de chegada de todos os sonhos de uma família portuguesa emigrante, escrita por José Luís Peixoto num livro cujo título é, precisamente, O Livro. O tema é global e o inventário impossível. Mas dessa impossibilidade talvez se deva deduzir que existe uma contradição aberta na cultura de hoje – Que estamos conscientes de que o livro literário representa uma forma de humanização que continua a agir sobre o nosso imaginário como espaço de refúgio e salvação, e que o medo de perdermos essa entidade sem haver nada no horizonte que a substitua assume uma expressão demasiado forte para não ser ela própria ficcionada.

Curioso, porém, é que de entre os livros que colocam os livros como sujeitos de ação, ou os transformam em elementos fabulosos de intrigas onde se tornam indispensáveis, o livro de Ray Bradbury, 451 Fahrnheit , publicado em 1953, faz agora precisamente sessenta anos, continua a emitir-nos alguns dos mais claros sinais de aviso e mais promissores sinais de esperança. O bombeiro Montag, incarnação da figura do queimador, que acaba por se transformar num dos clandestinos que amam os livros a ponto de os memorizarem e de se batizarem com os seus próprios títulos, deixar-se-á ele mesmo contaminar pelo desejo de os decorar. Tornou-se clássica no mundo a história desse queimador queimado de amor pelos livros. Talvez por isso, sempre que em alguma das sociedades de hoje, mesmo nas mais sofisticadas, aparecem fanáticos agitando listas negras de títulos, a metáfora de 451 Fahrenheit impede o avanço. Aliás, quando nos anos setenta se começou a temer que o audiovisual eliminasse os livros, sobretudo os literários, aqueles que expressam o fundo mais denso das línguas, invocou-se o livro de Ray Bradbury. Não aconteceu. Mas voltou a pensar-se nele com dramatismo, nos anos noventa, quando se temeu que o mundo digital engolisse para sempre a capacidade de leitura de longas páginas em detrimento dos pequenos fragmentos, e voltamos a retomá-lo como aviso, agora, quando pensamos que a “nuvem”, que a net proporciona, em breve poderá misturar livros, páginas, cruzar e tornar anónimo o que tem nome, apócrifo o que é verdadeiro, plagiar o que é único, destruir o elo que consideramos sagrado entre a obra e o seu autor. E perguntamo-nos se há possibilidade de a Literatura se salvar a si mesma. Há. Porque o mundo está cheio de Montags, que acabam por fazer da sua própria cabeça um depósito de saber.

Lídia Jorge

Jerusalém, 10 de Fevereiro, 2013

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