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Folheando com... E. S. Tagino


E. S. Tagino

2009-01-23

Há quem se apaixone por uma ideia, E. S. Tagino apaixonou-se pela Ilha Pérola do Índico e pela figura do Adamastor. Descubra aqui a entrevista ao escritor realizada pelo Portal da Literatura.

Há quem se apaixone por uma ideia, E. S. Tagino apaixonou-se pela Ilha Pérola do Índico e pela figura do Adamastor. Agora que o livro está editado, conte-nos o que mais o moveu a escrever este livro e o que mais retém depois do seu lançamento.

Este Adamastor resultou de um desafio lançado pelo meu editor António Pacheco quando, depois de ter lido o meu original Arquivo Morto, Prémio Paul Harris 2007, ainda não editado comercialmente, me falou do gigante Adamastor, uma das figuras mais conhecidas da nossa literatura, mas que, curiosamente, nunca tinha merecido uma abordagem sob o ponto de vista da ficção. Aliás, sou em crer que o Adamastor é mais conhecido pelas gerações actuais através de O Mostrengo, de Fernando Pessoa, do que, propriamente, pelo retrato original que, dele, faz Luís de Camões, em Os Lusíadas.

Sendo um apaixonado da poesia de Camões e tendo vivido durante alguns anos em Moçambique, por duas vezes, antes e depois da independência, assumi imediatamente o desafio, tendo dito, logo, que aquela só podia ser uma história narrada na primeira pessoa, porque, melhor do que ninguém, o Adamastor estaria em condições de revelar os seus segredos.

O que acontece é que, entre o Mostrengo e o Adamastor de Os Lusíadas, há uma diferença abissal: de um lado, temos o tenebroso guardião dos mares que vê o seu poderio afrontado por um arrivista insolente que diz falar em nome de el-rei D. João II e, do outro, um monstro patético, contraditório e inseguro, que amedronta para logo a seguir se derreter em pranto; ainda por cima, um pobre monstro que ousou aspirar ao amor de uma ninfa. Ora, este Adamastor é de uma riqueza imensa, porque a tragédia da sua vida, que é também a causa do seu desterro, igualmente o aproxima do seu próprio criador: Camões também sofre desterros por causa de amores insensatos.

Por fim, dava-se ainda o facto de eu conhecer bem a Ilha de Moçambique, onde, segundo o insuspeito Diogo de Couto, terá vivido o poeta e onde ele próprio o terá encontrado, no Inverno de 1559, “tão pobre, que vivia de amigos”. Couto, aliás, dá-nos muitas dicas importantes sobre essa passagem de Camões pela Ilha: para além de nos afirmar que é seu amigo, e de o nomear como “Príncipe dos Poetas” revela também que chegaram a partilhar a mesma casa em Goa; refere, ainda, que Camões chegou a ferros, por ordem do capitão-mor D. Pedro Barreto de Rolim, por causa de um adiantado de 200 cruzados feito em Goa, antes da partida; diz também que ele embarcou, rumo a Moçambique, aliciado por esse capitão Pedro Barreto, que vinha tomar posse da capitania de Sofala; e diz mais: que, enquanto Camões terminava Os Lusíadas, ia “escrevendo muito em um (outro) livro, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe furtaram… E foi furto notável”. Diogo de Couto revela ainda um facto muito importante: o de que, a pedido de Camões, e enquanto esteve na Ilha de Moçambique, durante nesse Inverno de 1559, realizou a revisão histórica do poema, tendo-a levado até ao fim do Canto V.
Depois, Couto, à margem de Camões, revela-nos muitos outros factos e acontecimentos contemporâneos da estada do poeta na Ilha. Sabemos, por exemplo, da passagem da armada do substituído vice-rei D. Antão de Noronha e das circunstâncias da sua morte, junto a Angoche, e do seu estranho testamento; e sabemos, ainda, como e em que circunstâncias D. Pedro Barreto e D. Francisco Barreto e os grandes amigos de Camões, o capitão Heitor da Silveira e o poeta João Lopes Leitão, morreram.

Depois, toda a poesia de Camões, mas não só a épica e a lírica. Mais do que qualquer outra, senti-me atraído pela poesia menos conhecida, aquela que raramente é referida ou pouca gente conhece, nomeadamente, os poemas em que se revela na relação com os amigos: as partidas que lhes pregou, as reinações, as pândegas, o sarcasmo, o motejo e a zombaria, aquilo que, ao fim e ao cabo, o aproxima do homem comum. E ainda as cartas que escreveu, de que se conhecem quatro, e onde ele se revela igualmente autêntico, jocoso, ferrabrás, quebra-bilhas e trinca-fortes.

Por fim, achei que seria interessante abordar a questão do processo criativo. Sabemos que quase toda a poesia da Camões é autobiográfica: ele é, afinal, o seu melhor biógrafo. E sendo um homem de experiências feito, seria natural que tivessem existido modelo reais para, por exemplo, figuras tão grotescas como o Tritão ou o Adamastor. Ou para episódios fantásticos e criativos como a tromba marítima ou a ilha dos amores. Depois, há, ainda, as mulheres. Não as europeias, mas as orientais: a começar pela infeliz Dinamene e a acabar na inolvidável Bárbora escrava, segundo ele, “aquela cativa que me tem cativo”, e a eterna dúvida de se, a sua “pretidão de amor”, não a poderá remeter, igualmente, para a pequena Ilha de Moçambique.

Devo dizer que escrever sobre o Adamastor e, por consequência, sobre Camões e a Ilha de Moçambique foi um imenso prazer e, só por esse motivo, a obra já realizou metade do seu objectivo. Naturalmente que falta sempre a outra metade, aquela que só o público leitor, com a sua inteligência crítica, pode acrescentar e consolidar.

Adamastor é o meu quarto livro publicado, não contado com o Arquivo Morto, que teve uma edição restrita, e é de todos eles o maior (tem 283 páginas), o mais ambicioso (retrata a saga dos portugueses no Oriente) e aquele que requereu um enorme trabalho de pesquisa, não só pesquisa histórica, o que já seria significativo, mas também ao nível da linguagem e da caracterização dos personagens. Por exemplo, a figura “real” que está por detrás do Adamastor é um comerciante árabe, chamado Momad Satar (cujo nome, através da manipulação acrónima, técnica sobejamente utilizada por Camões na sua poesia lírica, se transforma em Adamastor) e, sendo ele o narrador da sua própria versão dos acontecimentos, seria vital, para a sua credibilidade enquanto personagem, que o factor religioso não deixasse de, nele, estar incorporado, fazendo parte intrínseca da sua personalidade.

Depois do seu lançamento, em Outubro, o que mais retenho é a boa distribuição do livro que, pela primeira vez, para além das redes habituais da Bertrand e da Fnac, e nalgum pequeno comércio, está igualmente presente na rede Modelo/Continente, o que o levou praticamente a todo o país: das grandes cidades às pequenas vilas de província, segundo tenho podido constatar pelas notícias que alguns amigos me têm feito chegar. E, ainda o facto de, pela primeira vez, me terem sido solicitadas diversas entrevistas: nomeadamente, para o programa “À volta dos livros”, de Ana Aranha, na Antena 2; para o programa “Um livro, porque sim”, da Escola Superior da Comunicação Social, a ir para o ar, muito proximamente, na RTP2; para a revista “Memória Alentejana”, do Centro de Estudos Documentais do Alentejo; e agora, também para este Portal da Literatura.


Acha que quem leu o seu livro O Pequeno Incendiário – uma narrativa onde somos convidados a ver o mundo pelos olhos de um garoto de tenra idade – se vai interessar por Adamastor, ou presume que sejam públicos diferentes?

Penso que há na pergunta, à partida, um ligeiro equívoco. O Pequeno Incendiário não é um livro inocente nem um livro infanto-juvenil. Nem sequer é um diário. Em primeiro lugar, o garoto tem onze anos quando a história começa e treze quando a história acaba. Está pois na fase da pré-adolescência, na fase das grandes transformações hormonais. Mas o livro tem um epílogo, e esse epílogo remete o narrador para vinte anos depois. E é nesse momento, quando o narrador é já um homem maduro que o pequeno livro da capa rija, onde ele, em garoto tomava as suas notas, é encontrado. Por conseguinte, trata-se da visão de uma criança, mas ao mesmo tempo de uma visão revisitada pelo seu olhar de adulto.
Reportando-se a história a uma época em que as teorias pedagógicas e o “eduquês” não tinham entrado, ainda, no quotidiano das pessoas e em que a educação se fazia muito pela autodescoberta, escrevi este livro, mais para os pais e os avós do que para as crianças de hoje. Principalmente, para que os pais e os avós possam fazer a revisão da matéria dado. Mas se os filhos e os netos o lerem, possam, também eles, saber como eram os pais e os avós na idade deles.

Penso que a qualidade da escrita, o estilo narrativo, a abordagem bem-humorada e uma certa solidão interior dos dois protagonistas (uma característica comum noutras obras minhas) está presente em ambos os livros: o garoto de O Pequeno Incendiário não prima pela beleza e só tem um amigo que, por ironia do destino, é surdo-mudo; o paquidérmico comerciante Momad Satar é um estrangeiro na sua própria terra, condenado a fazer amizade com o mais humilde dos aventureiros portugueses, um pobre poeta, andrajoso, crivado de dívidas.
Quanto ao resto, são duas obras distintas. O romance histórico tem um público fiel e Adamastor corresponde ao gosto desse segmento, mas eu não escrevo para públicos restritos ou seleccionados, eu escrevo para quem gosta de literatura.
Só como nota final: a última alegria que O Pequeno Incendiário me deu foi saber que está à venda numa das maiores livrarias de Londres.

São vários os ingredientes do livro que nos fazem pensar ter havido, da sua parte, bastante pesquisa para a elaboração da obra (termos com grafia quinhentista, por exemplo). Quer contar aos leitores e potenciais leitores de Adamastor onde e como se processou essa pesquisa?

É um facto. Na verdade levei mais do dobro do tempo em pesquisa do que em escrita. A primeira necessidade que senti foi a de me impregnar da linguagem da época, depois o tipo de abordagem característico dos livros de viagens do século XVI e, só por último, me preocupei em rever o que mais importante se escreveu sobre Camões, nomeadamente as principais referências: Teófilo Braga, Oliveira Martins e Camilo Castelo Branco.
Como é que nos impregnamos da linguagem do século XVI? Lendo os clássicos: A Peregrinação, A História Trágico-Marítima e, naturalmente, Os Lusíadas. Não há outra maneira. Depois, complementar tudo isso com textos de outros autores, nomeadamente as Crónicas de Fernão Lopes, a Menina e Moça, do Bernardim Ribeiro, e algumas Farsas, de Gil Vicente.

Por causa da trama romanesca, tive, igualmente, necessidade de ler O Diálogo do Soldado Prático, de Diogo de Couto, e diversos extractos da sua Década VIII, esta disponível na Internet.

De qualquer modo, não iludo os meus leitores, no final do Adamastor vem lá, ordenadas alfabeticamente, todas as fontes consultadas. Naturalmente, que os computadores facilitam imenso a escrita, sendo hoje fácil a um autor aplicar uma uniformidade gráfica específica. Por exemplo, eu posso escrever “formoso” ou “contrário” e, com um simples clic, transformar esses termos, disseminados por todo o livro, em “fermoso” e “contrairo”, que era como se dizia e escrevia no século XVI. Foi isso que eu fiz: seleccionei uma vintena de termos mais característicos e comuns na obra camoneana e adoptei-os, dando, dessa forma, ao romance o cunho mais adequado a uma narração que nos remete para a época de quinhentos.


Como é que os seus leitores estão a reagir ao seu livro?

De uma forma muito positiva. Aqueles leitores mais fieis, os amigos e os que têm vindo a ser arrastados por uns e por outros; os que têm marcado, com a sua presença os meus lançamentos e as minhas apresentações, têm sido unânimes na expressão do prazer que Adamastor lhes tem proporcionado. Alguns têm-me, mesmo, dito que têm aprendido muita coisa com o livro. Às vezes fazem-me perguntas sobre se este ou aquele personagem, na realidade, existiu. E eu respondo que noventa cinco por cento dos personagens são reais e que os restantes cinco por cento são tão verosímeis que eu estou convencido de que também existiram.

Sobre o público, em geral, saberei alguma coisa quando, proximamente, a editora me fizer o reporte das vendas. Contudo, as entrevistas que o livro já suscitou, como nenhum outro antes, são um reflexo, minimamente revelador, do seu interesse junto do público leitor. Sei, no entanto, que a escrita é uma caminhada, que muitos autores tiveram sucessos imediatos e depois se desvaneceram, caindo no olvido. Sei também que a maior parte dos escritores de sucesso actuais não sabem escrever, que apenas são meros repórteres com alguma técnica e um pouco de imaginação jornalística. E, principalmente, sei também que uma imagem televisiva, ainda que efémera, vale mais que a qualidade literária de um texto. Sei que não posso competir com essa gente, por isso o meu sucesso será sempre relativo. Esforço-me pela qualidade e isso me basta. Posso não ter as turbas que vêm televisão mas, paulatinamente, estou certo disso, irei conquistando o meu público. Levará tempo, mas é mais seguro. Dar prazer e não defraudar quem me leia é o meu projecto. Se conseguir ter mil leitores fiéis sinto que já valeu a pena. Para já, o prazer é todo meu.


Quem escreve Adamastor gosta de literatura, em geral, e de história, em particular. Quer falar-nos dos seus autores preferidos e das obras que mais o marcaram?

Essa é uma pergunta difícil de responder porque a dificuldade está na escolha. Quando tinha onze anos ganhei um prémio de melhor aluno do ano, dado pelo Ministério da Educação. Foram quarenta livros – nunca mais parei de ler. Sou ainda do tempo em que as bibliotecas da Gulbenkian percorriam a província, de terra em terra. Nessa altura, gostava do Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte-Cristo…) e do Walter Scott (todos os seus livros históricos). Aí pelos quinze anos, descobri Jorge Amado (S. Jorge de Ilhéus, Cacau, Gabriela Cravo e Canela...) e foi uma paixão sem limites. O mesmo aconteceu com John Steinbeck (As Vinhas da Ira, A Leste do Paraíso, Bairro da Lata…). Dos portugueses, Alves Redol (Fanga, Gaibéus…) e Soeiro Pereira Gomes (Esteiros e Engrenagem) marcaram-me profundamente. Numa idade mais adulta comecei a ler Eça (Os Maias, O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio…) e quase em simultâneo Torga (Diário, Os Bichos, Contos da Montanha…); um pouco mais tarde, Gabriel Garcia Marquez (Cem Anos de Solidão, O Amor nos Tempos de Cólera, Crónica de uma Morte Anunciada…) e, ainda mais tarde, José Saramago (O Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira…). Curiosamente, o livro que estou a ler neste momento é o Evangelho Segundo Jesus Cristo, que comprei há anos e que nunca tinha lido. Posso dizer que é um livro notável. Dos autores que descobri nos últimos dez anos, saliento o húngaro Sándor Márai (As Velas Ardem Até ao Fim e A Herança de Ester) e o sul-africano J. M. Coetzee (Desgraça, À Espera dos Bárbaros, A Ilha...).

Mas também, desde sempre, tenho lido muita poesia. Reconheço que tenho um gosto muito clássico onde marcam presença Camões, Pessoa, algum Régio e, principalmente, Torga. Dos poetas mais recentes, páro em Alexandre O’Neill e Manuel da Fonseca. Dos poetas estrangeiros, gosto em especial de Garcia Lorca e de António Machado. Talvez por ter vivido em Moçambique, prezo, igualmente, três referências moçambicanas incontornáveis: Reinaldo Ferreira, Rui Knophli e José Craveirinha. Afinal, tudo autores do “Clube dos Poetas Mortos”.


Fale-nos sumariamente do seu trajecto literário. E finalmente, a pergunta que maior parte dos visitantes do Portal não deixariam de fazer: o que é que vem a seguir?

O meu percurso literário iniciou-se na poesia, através da publicação regular de poemas em jornais e revistas, colaboração que mantenho ainda hoje. Comecei no “Jornal de Almada”, no início dos anos oitenta, e ainda hoje publico regularmente poesia no “Ecos de Grândola”. O primeiro livro de prosa de ficção que escrevi foi em 2000, mas só em 2006, depois de me reformar, dei início, de forma sistemática e continuada, à escrita. No final desse ano, com três livros prontos e sem nada publicado nem conhecimentos no sector editorial, entendi que, só através de um prémio literário, poderia almejar, aos sessenta anos, vir a publicar um dia. Escolhi, pois, enviar o Mataram o Chefe de Posto para o Prémio Literário Cidade de Almada 2006; o Nem por Sonhos, para o Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes 2006/2007; e o Arquivo Morto para o Prémio Paul Harris 2007. Para meu espanto, eu, que almejava poder vir a ganhar um dos prémios ou mesmo uma menção honrosa que me pudesse abrir uma improvável porta, acabei por ganhar todos os três prémios a que concorrera.

Foi, pois, com naturalidade que o Mataram o Chefe de Posto viu os escaparates das livrarias, em Maio de 2007. Depois, em Outubro, foi a vez do Nem por Sonhos. E já em 2008, mais dois livros meus foram publicados: O Pequeno Incendiário e, em Outubro último, Adamastor.
Quanto ao futuro, que é afinal o que mais interessa, tenho três livros terminados. Como sou um escritor praticamente a tempo inteiro, tenho conseguido escrever dois livros por ano. Normalmente um livro de grande fôlego, como Adamastor, e um outro mais leve e mais curto, como O Pequeno Incendiário.

Naturalmente que não controlo a programação editorial, no entanto, o meu editor já me comunicou que irá publicar Arquivo Morto, Prémio Paul Harris 2007, durante o primeiro semestre do corrente ano. Por sugestão do editor, que adorou o romance mas não gostou particularmente do título, é provável que o livro venha a chamar-se Mea Culpa! Trata-se da história de um grupo de amigos adolescentes, a quem um acidente fortuito, uma brincadeira trágica, separou, e que, quarenta anos mais tarde, se revela, afinal, um crime quase perfeito.
Entretanto, na sequência da boa experiência suscitada pelo Adamastor, resolvi voltar ao romance histórico e pegar num episódio quase inverosímil, ocorrido em 5 de Dezembro de 1837, quando o mais temido dos guerrilheiros miguelistas, o famigerado Remexido, de seu nome José Joaquim de Sousa Reis, que operava regularmente na serra do Algarve, resolveu atacar Grândola e ocupar a vila durante mais de seis horas.

A ilusória incoerência desse ataque, nunca explicado e apenas aflorado, colateralmente, na tese de doutoramento de Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira, publicada em 2002, impressionou-me, durante mais de trinta anos, desde que, no âmbito de um trabalho académico sobre a História Política e Institucional do Século XIX, pela primeira vez dele tomei conhecimento. Mas também me impressionou o facto desta ocorrência, porventura o acontecimento mais relevante de toda a sossegada história de Grândola, ser totalmente desconhecida dos grandolenses actuais.

Durante as minhas pesquisas constatei até que o livro de actas da vereação da Câmara, desse ano, se extraviou, o que era normal nesses anos em que o poder real se volatilizava com facilidade, mas em que os caciques locais tudo faziam para seguir a máxima do notável príncipe de Salinas, de O Leopardo: “é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma”.

Acontece, ainda, o facto de minha filha me vir, constantemente, dizendo que estava na hora de escrever uma verdadeira história de amor. Na verdade, eu tinha já escrito alguns livros, nos quais o amor sempre estava presente mas nunca era central no desenrolar da trama romanesca. Entendi que devia corresponder ao seu pedido, até porque, por alturas daquela invulgar ocorrência, Almeida Garrett escrevia a obra-prima do romantismo português, o drama Frei Luís de Sousa.

Moveu-me, pois, a vontade de escrever uma verdadeira história de amor, que metesse sangue, suor e lágrimas; uma coisa pungente que chegasse ao coração das pessoas; que as fizesse vibrar, tomar partido e, acima de tudo, questionar convenções e ideias feitas que a história dos vencedores, que é sempre a História que permanece, tem, desde há cento e setenta anos, como certas e verdadeiras.

Em Outubro enviei a obra, sob pseudónimo, para o Prémio Poesia e Ficção de Almada 2008. Desta vez, confesso, sem grande espanto da minha parte, fui declarado vencedor; espantado fiquei quando o júri, para justificar o prémio atribuído, classificou a obra de “invulgar, bem escrita e um romance épico apresentado de forma brilhante”. Isto, quando eu, repito, tinha querido apenas contar uma simples mas empolgante história de amor!

Por causa do prémio, é muito provável que, em Outubro, O Amor nos Anos de Chumbo fure a programação editorial e veja também a luz do dia. Embora, desde a primeira hora, o tenha titulado desta maneira, mantive durante muito tempo sérias dúvidas por causa de O Amor nos Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez, mas o meu editor, mal teve conhecimento do título tratou de me limar os pruridos. É que um bom título é a melhor campanha de marketing que um autor pode fazer à sua obra.

Com tudo isto, o meu terceiro original concluído, Abaixo de Cão, por sinal escrito há mais tempo, irá ficar, mais uma vez, em banho-maria. Talvez em 2010 seja, finalmente, o seu grande ano. Alerto que se trata de uma história sórdida, demasiado real para ser verdadeira. Quem já leu o manuscrito diz que faz lembrar O Perfume; mas em versão “hard core”, acrescento eu. Neste caso os cheiros são fétidos e nauseabundos, mas impregnam o livro de ponta a ponta.

Houve também quem me dissesse que o livro dá vontade de vomitar – foi um elogia, porque essa foi, precisamente, a minha intenção. Para as almas mais sensíveis acrescento que, embora ao pé dele, o Bairro de Lata, do Steinbeck, se pareça com o Bairro da Lapa, o livro não vive do baixo calão nem da pornografia, mas duma dura e crua realidade que vai, muitas vezes, para além da própria ficção. Só para aguçar o apetite, a acção do livro decorre numa cama do Serviço de Politraumatizados de um Hospital Central, onde um homem inconsciente, sem identidade, tetraplégico, vegetal e totalmente dependente, emaranhado num dédalo de tubos, fios e consolas, acorda milagrosamente, mudo e sem memória. Quem é aquele homem e em que circunstâncias chegou ali? Essa é a pergunta, cuja resposta o leitor vai conhecendo, enquanto o paciente, nos limites da incoerência, entre avanços e recuos, vai conseguido recordar-se de quem foi.

Para terminar, gostaria ainda de dizer que, também na poesia, tenho ganho alguns prémios literários, o último dos quais, em Dezembro último, o 2º. Prémio Irene Lisboa, com um conjunto de poemas intitulado Sonetos Triviais. E que a 2ª. Colectânea dos Poetas Alentejanos, a sair já em Março, terá alguns poemas meus.
Uma última nota, apenas para dizer que assino os meus trabalhos de poesia com o nome próprio, A. J. da Costa Neves, e a ficção com o pseudónimo literário E. S. Tagino.

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