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Poema e Poesia de Teixeira de Pascoais

Como estou só no mundo! Como tudo 
É lagrima e silencio! 

Ó tristêsa das Cousas, quando é noite 
Na terra e em nosso espirito!... Tristêsa 
Que se anuncia em vultos de arvoredos, 
Em rochas diluidas na penumbra 
E soluços de vento perpassando 
Na tenebrosa lividez do céu... 

Ó tristêsa das Cousas! Noite morta! 
Pavor! Desolação! Escura noite! 
Phantastica Paisagem, 
Desde o soturno espaço á fria terra 
Toda vestida em sombra de amargura! 

Êrma noite fechada! Nem um leve 
Riso vago de estrela se adivinha... 
Sómente as grossas lagrimas da chuva 
Escorrem pela face do Silencio... 

Piedade, noite negra! Não me beijes 
Com esses labios mortos de Phantasma! 

Ó Sol, vem alumiar a minha dôr 
Que, perdida na sombra, se dilata 
E mais profundamente se enraiza 
Nesta carne a sangrar que é a minha alma! 

Ilumina-te, ó Noite! Ó Vento, cála-te! 
Negras nuvens do sul, limpae os olhos, 
Desanuviae a bronzea face morta! 

Oh, mas que noite amarga, toda cheia 
Do teu Phantasma angelico e divino; 
Espirito que, um dia, em minha irmã, 
Tomou corpo infantil, figura de Anjo... 
E para que, meu Deus? Para partir, 
Com seis annos apenas, no primeiro 
Riso da vida, em lagrimas, levando 
Toda a luz de esperança que floria 
Este êrmo, este remoto em que divago... 

Como estou só no mundo! Como é triste 
A solidão que faz a tua Ausencia, 
E o terrivel e tragico silencio 
Da tua alegre Voz emudecida! 

Ó noite, ó noite triste! Ó minha alma! 
Tu, que o viste e beijaste tantas vezes, 
Tu, que sentiste bem o que ele tinha 
De angelica Creança sobrehumana, 
Não vês as proprias cousas como soffrem, 
E como as grandes arvores agitam 
As ramagens de lagrimas e sombras? 

Repára bem na lugubre tristêsa 
Da nossa velha casa abandonada 
Da divina Presença da Creança! 

Ah, como as portas gemem e o beiraes 
Têm soluços de vento... 

Lá fóra, no terreiro onde brincavas, 
A noite escura chora... 

                        Ó minha alma, 
Embebe-te na dôr das Cousas êrmas; 
Chora tambem, consome-te, soluça, 
Junto á Mãe dolorosa, de joelhos... 

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'

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