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Poema e Poesia de Fernando Namora

Corpo
Fernando Namora

Poema da Hora Escoada

Minhas mãos 
- duas chamas débeis de vela 
unidas no mesmo destino. 

Minhas mãos 
derretidas em cera 
que vai escorrendo, 
gota a gota, 
ao longo do corpo hirto 
da vela moribunda. 
Que vai escorrendo, 
lenta, 
na calmaria falsa e densa 
da luz delida e mortuária do meu quarto. 

E o livro de Anatomia, 
grave e inútil, 
aberto em frente. 

E todo o mundo, 
que me espera 
e desespera, 
nas páginas inúteis e graves 
do livro de Anatomia. 

E as horas 
morrendo, morrendo, 
como uma vela que se vai derretendo 
no quarto frio de um morto. 

Ai! minhas mãos, minhas mãos 
- duas chamas débeis de vela 
unidas no mesmo destino! 

                - Que horas serão? 

A vida 
é uma vela de corpo hirto 
que se vai derretendo, derretendo, 
na calmaria falsa e densa 
de um quarto de morto. 


Em 'Mar de Sargaços'

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