Raízes - Lídia Jorge
O Mistério
2013-12-13 00:00:00A mãe da minha mãe era uma mulher singular. Pequena, magrinha, sempre vestida de igual quer fosse verão ou inverno, trabalhava muito, comia pouco, falava só o necessário e não tinha medo do escuro. Ninguém a enganava, ela não enganava ninguém, sabia descobrir se ia chover pelas luas, reconhecia o comportamento das pessoas pelo olhar, e não se coibia de o dizer. Na verdade era temida. Assim já o tinham sido a sua mãe e a mãe de sua mãe e assim por diante, recuando no tempo até ao princípio do século XIX. Mas nós amávamo-la. Não só ela nos oferecia o seu colo pequeno, fazendo dele um saco, como nos dava ofertas extraordinárias. Ninhos de pássaro, casulos de vespa, bolbos de plantas, e no final das visitas, uma nota dobrada em quatro, às vezes dobrada em oito, que nos colocava na palma da mão, fechando-a. Uma nota choruda. “Shiu! É para ti”. Dizia, em modo de cumplicidade. Passávamos dias, semanas, meses, em sua casa, mas só no último dia nos dava a grande prenda. “Shiu! Toma, é para ti”.
Entretanto eu fiz-me mulher e ela fez-se uma mulher velha, e a certa altura ficou mesmo velha e percebia-se que ia morrer. Ficou estendida numa cama e já nada tinha que fosse só seu em redor. Fui visitá-la e na hora da despedida, de olhos fechados, a sorrir, estendeu a mão fechada e disse – “Toma!” Eu estendi a minha mão e a minha avó depositou o nada que tinha na sua mão dentro da minha. “Toma, é para ti” – disse, contente. Eu não tinha nada na mão, ela não tinha nada na mão. “Obrigada, é muito, é lindo” – disse à minha avó. “Pois é só para ti” – repetiu várias vezes, como antigamente. E foi nesse momento que eu descobri o mistério das mulheres da minha família. A mãe da mãe da minha mãe, a sua mãe e a mãe da sua mãe, tinham fama de feiticeiras. Diziam as pessoas que cada uma delas, na hora de morrer, estendia a mão para quem se aproximasse, dizendo – “Toma, é para ti”. Corria que o que elas queriam dar a alguém era o novelo da feitiçaria. Em geral, morriam sozinhas, ninguém queria aceitar o novelo invisível que ninguém via, mas conferia o poder do feitiço. E assim se havia tecido uma lenda. Naquele dia, a minha avó tinha os olhos fechados, mas estava contente. Não tinha nada na sua mão e julgava que tinha. Uma nota dobrada em quatro ou oito pregas, que ela poupava ao longo de meses e guardava, religiosamente, para dar como prenda, na hora da nossa despedida. Mas não nos dava só a nós, seus netos. Nós sabíamos. Dava a quem precisasse da sua generosidade calada. Afinal era essa a sua feitiçaria. Morreu a minha avó, desvendou-se o mistério, eu procuro o seu novelo invisível.
Lídia Jorge
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