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Raízes - Lídia Jorge


O Bosque

2019-01-28 10:00:18

RDP – Crónica 1

 

Um bosque é uma floresta esparsa. No bosque as árvores encontram-se dispersas pelo terreno e os arbustos não cobrem o solo por inteiro. No bosque há tufos de arvoredo e há clareiras. O meio ambiente pode reflectir o tom esverdeado dos milhões de folhas suspensas dos ramos, mas a luz do sol, ao contrário do que sucede na floresta, ilumina a terra, e o manto de vegetação que sobre ela se acumula deixa os detritos vegetais e as miudezas do húmus à vista. Com precisão, os franceses designam o bosque de floresta clara. Assim deveria ser. E no entanto, pronunciamos a palavra bosque e a imagem que temos é de um ambiente obscuro, um lugar com penumbra, um esconderijo no meio da qual alguma coisa preciosa está à nossa espera. Alguma coisa antiga como a nossa infância, alguma coisa futura como a promessa de um mistério que maravilhosamente se anuncia mas não se desvenda.

– Confirmo tudo isto, pois agora eu voltei a viver na casa do bosque.

Mas uma coisa é a fantasia do sonho, a outra a realidade que a cria. O que na casa do bosque existe de maravilhoso são as árvores. Ao longo dos anos, sempre aqui regressei, e no entanto não as via. De vez em quando dava por que uma delas havia desaparecido, que uma outra havia sido posta no seu lugar. Dava por que as copas das oliveiras iam tomando outros formatos. Havia figueiras de braços altos que os tinham pousado na terra, enquanto ao lado o tronco de uma amendoeira se cobria de verde sob o aperto da hera. Alfarrobeiras de grande porte agigantavam-se em frente da casa e as pernadas altas, como mastros de navios, ameaçavam rachar e cair sobre o caminho. O damasqueiro encaminhava-se na direcção da janela da cozinha, a luz no interior da casa faltava. Havia então a ameaça de que, quando viesse o Outono, teria de ser podada. A ameixeira a quem ninguém ligava, cobria-se de flores e dava frutos em cachos amarelos exuberantes, ameixas que ninguém colhia, e de vez em quando, dando conta dessa generosidade, eu sentia remorsos por não lhe prestar atenção alguma. A palmeira nascia no lugar indevido e era trasladada para longe do pátio. A casuarina, enfezada, amarrada a um pau, sobrevivia de ano para ano sem formar em redor do tronco a opulência vegetal das penas do pássaro casuar. Tudo isso se passava, eu ia tomando nota de algumas dessas mudanças, mas apenas sabia da sua existência, como o rei sabe que existe o povo. Não as conhecia, não as amava. Agora, que regressei à casa do bosque, e aí vejo surgirem as manhãs e as noites, e as madrugadas, quando as árvores saem da sombra e se apresentam gradualmente à luz do dia, começo a tentar entrar no seu mundo, a espiar a maravilha das suas vidas.

Não se movem as árvores por inteiro. Só em Shakeapere, no Macbeth, as árvores das florestas caminham. Sei disso. Mas sei também que não se movendo, as árvores têm movimento. Mais do que isso, não param de se mover, ainda que seja inapreensível ao nosso olhar. Não sei como fazem as árvores do bosque. Se olho para elas, parecem-me estáticas, a não ser que a brisa ou o vento as sacuda. Mas esse movimento é exterior às suas vidas. Refiro-me ao movimento das folhas, das raízes, das flores, dos frutos. Não consigo ver desabrochar uma folha, uma pétala, por mais que espere na sua frente. E no entanto, se saio pela manhã e volto pela tarde, acontece que se registou um movimento. A folha abriu, a flor surgiu, o ramo ficou mais espesso. Porque não o faz diante de mim? Porque se escondem os movimentos das árvores? Porque não agimos pelo mesmo ritmo e não aprendemos com elas a ser lentas, a ter vagar, a viver tranquilas, se é o que parece? Se é que a sua tranquilidade não é apenas uma aparência aos olhos humanos? - É isto que eu penso, de madrugada, quando me levanto na casa do bosque e espero por que as flores das amendoeiras tenham coberto os ramos de branco rosado. Caminho pela rua, deixo o sol raiar.

É verdade. Durante a noite, as pétalas abriram sem que eu assistisse ao seu movimento. Então eu penso que Zenão, depois do paradoxo de Aquiles e da tartaruga, poderia ter criado o paradoxo das árvores. Ele que demonstrou que Aquiles, por mais que caminhasse nunca avançaria no espaço, dividindo-o em partes consecutivas até ao infinito, bem poderia demonstrar o oposto em relação ao movimento dos seres vegetais. Aos nossos olhos, a árvore não se move. Mas como todo o seu corpo se move, afinal, Zenão, o pré-socrático, poderia ter imaginado um salto no tempo. O tempo das árvores, inapreensível à vista desarmada, infinitamente expandido, alcançaria então a velocidade da luz. E contudo não vale a pena fazer elucubrações de semelhante natureza, no meio das árvores do bosque. Que venha Max PlancK, o criador da Física Quântica, e utilize o seu relógio de calcular neste caso. Por mim, quero imaginar apenas que no meio do bosque tranquilo, surgirá, à velocidade dos ritmos humanos, velozes, de um aparelho electrónico qualquer, uma voz humana anunciando uma boa notícia. Não sei o que as árvores querem. Eu desejo a boa notícia. Eis a dimensão do mistério.

Primeira Crónica de “Em todos os sentidos”
1 de Janeiro de 2019.
Lídia Jorge

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