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Raízes - João Tordo


Sistema de Suporte

2010-03-25 00:00:00

Sistema de Suporte

Li uma vez num volume de Stephen King – o mais desprezado dos escritores contemporâneos, pelas razões certas e ainda por todas as razões erradas – que a vida não é um sistema de suporte da arte, mas o contrário. Na altura (foi há uns anos) não compreendi completamente o que queria King dizer com essa afirmação, embora tentasse explicá-la da seguinte maneira: se queres ser um escritor, não coloques a mesa de trabalho no meio do escritório (ou do quarto, ou da arrecadação, ou do sótão); coloca-a a um canto e deixa que o resto do espaço respire. Três romances depois – na realidade cinco, dois deles remetidos à gaveta das coisas perdidas –, muitos contos, e centenas de horas de solidão remetido ao silêncio das minhas próprias palavras (muitas delas nos lugares errados porque tem de se errar muitas vezes até se descobrir o lugar certo das coisas) julgo que estou mais próximo de entender o que significa este tal “sistema de suporte” de que falava o autor americano.
 A vida, portanto, não é o sistema de suporte da arte, o que significa que não existimos para poder escrever mas que escrevemos, justamente, para poder existir. E, no entanto, como conjugar duas coisas que aparentemente são tão antagónicas que, concentrados numa, dificilmente podemos exercer a outra? Quem está demasiado vivo não escreve, isso é por demais evidente; quem está demasiado ansioso por consumir mundo, demasiado obstinado em deixar-se levar pela maravilha que um homem lançado às coisas sempre experimenta – da felicidade mais desbragada à decepção mais profunda – só por um proverbial acaso ou um funesto acidente se lembrará de se sentar à secretária no meio do escritório (ou do quarto, ou da arrecadação, ou do sótão) e colocar em palavras aquelas que foram as suas impressões de ter estado vivo, de ordenar parágrafos e páginas inteiras e finalmente livros que dotam de sentido a realidade ou então a destroem completamente.
Curiosamente, esta ideia começava a formar-se na minha cabeça quando, alguns anos após ter lido aquele volume de King, me deparei com a seguinte frase num livro de Javier Cercas (talvez o nome mais importante da literatura espanhola actual, talvez): só se pode escrever quando se escreve como se estivéssemos mortos e a escrita fosse a única forma de evocar a vida, o único cordão que ainda nos liga a ela. Soube então que a minha suspeita – embora desejasse que assim não o fosse – se confirmara afinal verdadeira: que um escritor não é um escritor porque o quer ser (e quantas vezes, na adolescência, coloquei a mesa de trabalho no centro do quarto tentando aldrabar as minhas probabilidades), ou porque se julga talentoso, ou porque lhe disseram que é capaz; um escritor é um escritor porque, noutras encarnações, já foi um marinheiro de água doce e, mais tarde, um capitão solitário num navio a caminho de parte nenhuma e, finalmente, um pirata zarolho e coxo, afogado em rum, que consumira tanto mundo que, a certa altura, acabara consumido por ele e nada mais lhe resta que ir saqueando os navios de passagem, colhendo tesouros obsoletos e cobertos de pó e deixando marca das suas ossadas, demasiado vivo para morrer e demasiado morto para viver.
 Infelizmente, os tempos são outros: são tempos de gente demasiado educada, que julga que a vida é o sistema de suporte da arte; que a arte, ou esta coisa da escrita – se é que lhe podemos chamar assim, se é que vale esse epíteto -, esta coisa de escrever e tentar dotar o mundo de sentido através da beleza, é obra de gente educada, respeitável, correcta e incorrigivelmente sóbria.   
 Assim, tenho saudades dos bêbedos. Tenho saudades dos mal-educados, dos inconvenientes, dos que tratam da saúde como quem trata um fósforo que o vento apagou, dos que passam mais tempo a viver do que a escrever porque a escrita não é o casco do navio mas a sua vela ou nem sequer isso, pequena flâmula que brilha lá em cima para que ao longe se saiba que rasga, trôpega, o mar bravio, uma embarcação de piratas. Os escritores eram sobretudo isso: eram piratas; pelo menos nos tempos em que havia escritores coxos, de palas no olho, de hálito embargado pelo álcool, de olhos revirados do avesso da loucura, de braços pendurados aos ombros dos outros piratas porque mal se conseguiam ter de pé – porque, como é sabido, os piratas andavam sempre em grupo, só se separavam quando a morte chegava e os varria com violência da superfície deste lugar onde nos afundamos em terra firme mas, por paradoxal que nos pareça, nos aguentamos à tona no mar bravo.
 Porque a escrita não é a vida mas, por vezes, pode ser uma forma de regressar a ela.

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