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Raízes - João Morgado


“OS SEIOS DE OFÉLIA” (Conto integral)

2020-10-20 10:11:39

Conheço a Ofélia desde que os seus seios eram pequenos.

Aliás, minto... conheço-a ainda do tempo em que não tinha seios. Do tempo em que vinha para a janela brincar com a tigela de loiça e os seus olhos vinham até mim, reflectidos nas imensas bolas de sabão.
Os olhos eram verdes, o sorriso branco como a pele do seu peito nu.
A sua felicidade cabia juntamente com o arco-íris nas bolinhas rutilantes que ela soprava lá do alto. Muitas vezes vinham cair e respingar o peitoril da minha janela, de onde eu a observava escondido. Depois, era capaz de jurar que as bolinhas de sabão lhe entraram dentro da pele e o leque de cores se lhe abriu na carne – foi quando lhe nasceram os seios.
Acreditem em mim, eram as flores mais puras que existiam, flores de carne macia e pele de luar onde despontavam dois carpelos escuros.
Eu – sempre escondido -, ficava maravilhado a vê-la ondear na janela, como as flores quando dançam de mãos dadas com as brisas mais fortes.
Um dia, a mãe agarrou-a por um braço e obrigou-a a vestir uma blusa. Esse foi o último dia em que vi os seios da Ofélia – para mim, as suas flores ficaram escondidas para todo o sempre na estufa opaca das suas roupas.
Pelo que lhes conto, compreenderão, que foi um dos dias mais tristes da minha vida.
Os meus olhos moravam no rés-do-chão e o seu peito no altivo primeiro andar do prédio em frente. A sua janela abria-se quando havia sol de Inverno, mas era na Primavera que Ofélia se ficava por ali a ver o riscar aberto das andorinhas. E cá do fundo – escondido – via maravilhado como ano após ano lhe cresciam os seios.
Recordo-me perfeitamente quando um risco lhe dividiu o peito, e os seios enovelados de mulher ganharam sombreado e se tornaram volumosos como plantas viçosas, com as suas pétalas altivas, que pareciam querer extravasar dos decotes abertos, das roupas justas de adolescente.

Ela regressava a cada manhã para receber o sol nos cabelos claros, com os seus olhos verdes que encantavam e o seu peito arrebatador para quem passava. Era a mais feminina de todas as paisagens que eu podia sonhar, escondido, na sombra da minha janela rasteira.

E via como os rapazes passavam e repassavam debaixo do seu parapeito, como lhe atiravam pedrinhas aos vidros para que viesse enfeitiçá-los com a sua perfeição, como lhe cantavam serenatas desafinadas – digo eu -, mas que tanto pareciam encantá-la!

E os seus peitos cresciam e cresciam. Demasiado até, disse eu um dia de mim para mim. Estavam luzidios, cheios como a dimensão do meu silêncio; transbordavam em sensualidade como se tivessem pedido emprestado o contorno do mundo.
Uma tarde o pai arrancou-a à força da janela. Ainda deitou a mão à grade da floreira, mas a força bruta do pai acabou por arrastá-la por entre um bofetão e outro. Ouviram-se então gritos e choros e a sombra de braços no ar, no recorte luminoso da janela. Nessa noite não acordaram as estrelas nem se entreabriu o quarto minguante da lua. Foi tempo de um só choro. Um choro que eu não ouvia, mas pressentia para além dos cortinados de renda que resguardavam a intimidade da casa de Ofélia. E sem saber porquê, chorei também. Chorei por saber que ela chorava, e sofri as dores que ela sofria mesmo desconhecendo os seus tormentos. Adivinhei-os mais tarde.
Depois de um longo inverno, regressou com o despontar do tempo quente, a transbordar amor pelo peito, abençoada pelo espírito da criação, com uma criança nos braços.
Fiquei boquiaberto, mas quem era eu para julgá-la…
Linda. Para mim continuava linda e isso bastava. Diria mesmo, que estava mais linda que nunca. Olhava-a com pudor cá do fundo dos meus olhos baixos, e via o seu peito vaidoso de mãe solteira a alimentar de ternura a sua cria. Acho que o arco-íris ainda estavam dentro das suas flores de carne macia e pele de luar, pois o seu bebé crescia cheio cores, de sorrisos brancos, de olhos verdes como os da mãe. Não tinha um traço do pai – digo eu, que nunca o conheci.
Os peitos de Ofélia alimentaram sonhos, desejos, alimentaram uma criança. Depois, como numa vénia respeitosa, descansaram, abateram-se como o restolho depois do temporal, como se as rutilantes bolas de sabão tivessem rebentado dentro dela como outrora rebentavam no meu peitoril. Tornou-se então uma mulher triste e só, a olhar o infinito a partir da sua janela. Sei-o eu que, dia-a-dia, olhava para ela como quem olha uma virgem na sua prece. Só o filho que crescia em seu redor lhe roubava um sorriso de vez enquanto, um sorriso que com o tempo, era cada vez menos rasgado, menos branco.
E um dia, veio o batom para disfarçar o sorriso sem brilho, o blush para disfarçar a falta de cor, e um colar enorme para dar ao peito a altivez que perdera. Já não tinha vaidade dos seios entretanto consumidos pela idade. Estavam secos pela falta de beijos, mortos pela falta de carícias.

Já não é a jovem Ofélia que eu conheci, do tempo em que não tinha seios. Hoje morre de calores mesmo quando não há sol, mesmo quando é o Inverno a soprar-lhe o rosto.

Sente-se afrontada. O seu peito é grande mas amargurado.
Veste de negro por morte da mãe e por morte do pai – aquele que um dia a arrastou consigo por entre uns bofetões de homem envergonhado. Veste de negro porque é a cor que rima com solidão, é a cor da ausência de um filho emigrado lá bem longe, porque para ela tudo é longe e o fim-do-mundo começa no fundo da sua rua. Tem um colar novo sobre o peito e um olhar perdido no infinito, longe, muito longe.
Eu espero que um dia o seu olhar desça ao rés-do-chão rasteiro dos meus olhos, suave como o respirar de quem dorme, e respingue o meu peitoril como as bolas de sabão que me traziam o reflexo dos seus olhos verdes.
Quem sabe então, eu tenha a coragem de lhe mostrar os meus olhos pardos, de lhe mostrar o meu sorriso furtivo, e de lhe gritar cá de baixo que a amo, mesmo que os seus seios tenham caído de tristeza. Mesmo que os seus seios se tenham apagado sem que lhe tenha conhecido o cheiro ou o sabor. Quem sabe então, cá da minha janela do rés-de-chão, eu tenha a coragem de lhe gritar que a amo. Eu, que continuo nos baixios do meu acanhamento, a olhar o castelo altaneiro do seu peito, de coração apaixonado, na prisão da minha cadeira de rodas...

João Morgado

Comentários


A mostrar os últimos 20 comentários:

José Moutinho, 2020-11-20 11:26:57

Excelente conto iluminado pela paixão juvenil que mais tarde se transformou, quiçá, em amor platónico. Gostei bastante!

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