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A Divina Miséria



Sinopse

Há histórias, personagens, invenções sobre o mundo que podem viver connosco durante anos e anos, ser parte do nosso imaginário e suscitar em nós a linguagem dos chamados «grandes sistemas» políticos e sociais do nosso tempo. Esse é o caso desta novela. O autor trouxe-a consigo de estação em estação, de livro para livro, em momentos de pausa, pulsão de reescrita e obra inacabada, por entre outras ficções - como um texto que estivesse à espera da sua própria completude, para só então existir fora de quem o escreveu e criou. A Divina Miséria separa-se definitivamente do seu autor para adquirir vida própria e propor-nos a imagem do obscurantismo moderno, os poderes terreno e divino como tema de uma literatura que tenta forçar os limites da própria imaginação. Eis um ser vivo à margem do seu criador.

É de uma nova «trindade» que esta novela nos fala: o triunfo da religião sobre a morte simbólica da Igreja, a rota de colisão entre o humano e o transcendente, a grande potência invasora do mundo de hoje, mais forte do que Deus e senhora absoluta dos homens.

Críticas ao livro " A Divina Miséria "

Fonte: Victor Rui Dores

“E nada pode haver de mais triste para quem morre do que ser enterrado à chuva, sentir o corpo misturar-se com a outra lama de que fomos feitos, a qual há-de ser sempre o lixo de Deus, a divina miséria da nossa criação”. (pág. 78)

Estão agora na moda os “romancistas” que escrevem para o Mercado, cujos livros denotam muito Dan Brown, muito diálogo, muitas peripécias e muitas frivolidades sentimentais e (tele)novelescas… José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto e quejandos estão nesta lista. Por outro lado, existem os verdadeiros escritores para quem a literatura é uma forma de Arte e que encaram a escrita como objecto estético.

João de Melo encaixa-se claramente neste último grupo, pelo alto nível vocabular das suas obras, pela sua prodigiosa imaginação criadora, por uma sintaxe esplendorosa e pelo deleite estético produzido na consciência do leitor. Ainda não há muito referia ele que “os falsos escritores estão a produzir falsos leitores e não a aumentar os índices de leitura em Portugal e no mundo”.

Ocorrem-me dois exemplos de escritores que viveram gloriosamente um presente literário e que foram absolutamente esquecidos no futuro: Pinheiro Chagas (1842-1895), “profícuo escritor” na sua época, mas que hoje só é conhecido por razões que se prendem com a toponímia da cidade de Lisboa. E Reis Ventura (1910-1988), o consagrado plumitivo que, num concurso literário promovido em 1934 pelo Secretariado de Propaganda Nacional, concorrendo com o pseudónimo Vasco Reis, apresentou um livro execrável intitulado A Romaria, o qual viria a relegar para a categoria B a Mensagem, de Fernando Pessoa.

Habita em João de Melo um estilo, uma linguagem de criação, a precisão da palavra e da frase, a multiplicidade de significações. Com mais de 30 anos de percurso literário e uma vintena de títulos publicados, os livros deste autor dão conta da experiência açoriana, da vida em Lisboa, da dimensão de África (ele que deu um notável testemunho literário sobre os horrores vividos e sentidos na Guerra Colonial), das mitologias do quotidiano e de uma ideia de universalidade a partir do espaço insular.

Ora, é na palavra que começa e acaba toda a arte literária. O que torna perene a literatura é justamente a qualidade da escrita e a dimensão humana das personagens que povoam as verdadeiras obras de ficção. Dito de outra maneira: a perenidade da literatura está na escrita literária, não está na reportagem jornalística… Ontem como hoje, os bons livros escasseiam, os maus abundam. Que se cuidem, pois, aqueles que escrevem livros de fácil, rápida e larga difusão…

Vem tudo isto a propósito da leitura que acabo de fazer de A Divina Miséria, de João de Melo (Dom Quixote, 2009), novela ao longo de vários anos urdida e cuja gestação assim se explica: esta é uma nova versão, bastante ampliada e sucessivamente reescrita, de três narrativas mais ou menos aparentadas entre si: “O Tempo de Todos Nós” (publicada na revista Aresta, 1984), o conto “O Homem da Idade dos Corais” (inserto no livro Bem-Aventuranças (Dom Quixote, 1992) e “A divina miséria” assim mesmo já figurando enquanto título no livro Entre Pássaro e Anjo (Círculo de Leitores, 1987). O texto surge agora, revisto e aumentado, perfeitamente autónomo.

Não há literatura sem geografia. E, em A Divina Miséria (novela que bem poderia ser a continuação de O Meu Mundo Não é Deste Reino), João de Melo dá-nos uma visão que é ao mesmo tempo mítica e realista da ilha, falando-nos de um tempo insular e insulado, marcado pelo contencioso social. Rozário, uma pequena comunidade açoriana, é o lugar onde tudo se passa e onde pulsa todo o universo e todo o imaginário de um povo rural marcado pela religião, que sofre o isolamento, o cerco atlântico (isto é, tem o mar imenso como única fronteira e horizonte) e está sujeito à “pavorosa solidão” de que fala Raul Brandão em As Ilhas Desconhecidas.

O “leitmotiv” de A Divina Miséria prende-se com a morte e o funeral do padre Governo, figura central do livro, sendo que a morte daquele pároco é, de alguma forma, a morte simbólica da Igreja Católica. Acima de tudo, o livro dá conta de muitas e variadas formas de obscurantismo – memória de um tempo em que grassava o medo, a angústia, a crueldade, a injustiça e a intolerância, numa visão desapiedada da Igreja: aqui se denuncia precisamente a “tirania eclesiástica” (pág. 84), “as leis da ditadura eclesiástica” (pág. 91)...

Um narrador autodiegético (ou seja, o narrador é participante e testemunha na acção) conta a história desse povo sereno e submisso aos ditames da moral católica: a confissão, a culpa, o remorso, a superstição, as penitências, as humilhações. O sacristão Calheta tipifica – e bem – essa submissão ancestral. Aqui se fala da opressão dos poderes terreno e divino, tipificados não só no padre Governo, mas também no regedor Guilherme-José. Apenas o “revolucionário” João Lázaro representa a consciência crítica desse mundo de misérias. Dele é que vêm propostas de libertação. Simbolicamente, na parte final do livro, essa libertação será feita, de forma humorística, corrosiva e louca, por marines americanos que invadem o Rozário com submarinos que emergem no Pesqueiro… Diatribe anti-imperialista? Há obviamente um carácter simbólico neste desembarque. Até porque, dentro e fora do espaço insular, sempre fomos colonizados (e não só culturalmente) pela nação americana.

Na sua essência, A Divina Miséria (de)escreve a morte de padre Governo – a real e a simbólica. Este é mais um sério ajuste de contas que João de Melo faz com a História e com o passado, até porque como escreveu William Faulkner, “o passado não está morto. Nem sequer é passado”.

Bem vistas as coisas, catártica é a boa literatura.

Horta, 13 de Janeiro de 2010

Fonte: Paulo Figueira
Inserido no contexto da vida das ilhas, A Divina Miséria de João de Melo reúne um conjunto de episódios característicos de uma povoação alheia aos "benefícios" das luzes. Tendo como cerne a morte do Padre Governo e respectiva substituição na povoação, a novela – como é catalogada pelo próprio autor – é uma elucidativa alegoria da caverna baseada no imediatismo das relações humanas mais básicas, mas que transportam em si uma cabal teia de enredos.
Começando uma sucinta análise pelo título da obra, o leitor é induzido na propositada ironia literária com A Divina Comédia. A primeira cumplicidade, chamemos-lhe assim, é a mancha gráfica do título. Depois, há a aproximação da palavra substituída do título de Dante Alighieri a "Miséria", que reproduz a mesma cadência linguística do título original, ao tratarem-se de duas palavras esdrúxulas, cujo conteúdo semântico compreende a referida dimensão irónica com que a intertextualidade literária redescobre o mundo real factual do Homem, a partir do seu real ficcional. Por outro lado, porém, ao encontro do anteriormente escrito, a "Miséria" de Melo não deixa de ser uma crítica social mordaz, não ao jeito de Dante, daí o caminho da intertextualidade, mas ao jeito peculiar de uma reescrita das questões sociais e de poder que continuam a reger a vida dos homens, ao longo dos séculos.
Diferente da literatura do século XIX, João de Melo aproxima o leitor, pelo artifício da (re)escrita, da verosimilhança que a figura de um homem acamado que narra a um escritor os factos daquela localidade, com a mordacidade própria de quem vivera o contexto repressor naquela pequena freguesia. Mais do que um "lector in fabula" temos um "scriptor in fabula". Não o entendemos como um autor, na medida em que o interveniente junto ao velho é um "écrivain" na dimensão barthesiana da questão: ao ser o sujeito que ouve o relato, compô-lo-á e, numa terceira dimensão, publicá-lo-á. Pelo que consideramos a afirmação encontrada na p. 63, quando o velho desmascara a função ficcional do escritor: "porque as suas ficções são apenas o lado subtil da insinceridade. Dá-nos, do mundo, uma imagem postiça, às vezes simbólica, outras vezes meramente cerebral."
Ao longo da leitura, somos confrontados com pequenos episódios rocambolescos que se emparelharão num corpo global. As narrações do velho acamado são uma espécie de monólogo reflexivo escutado por um escritor, que, por sua vez, acompanha essas palavras no seu estado demiúrgico. O escritor que o discurso do velho explicita cumpre a função de testemunha do discurso e, quiçá, uma espécie de sujeito narrativo "ex machina." Será sobre ele que recairá a responsabilidade de fixar e moldar a palavra do sujeito que fala da transformação operante na povoação do Rozário. Com a morte do Padre Governo, é o ancião quem desencadeia uma série de analepses que veiculam a catarse dos acontecimentos. Deambula pela autoridade do falecido, através da imposição eclesiástica sobre todo aquele povo, uma autoridade cúmplice do poder político que transformou o Rozário, explicitamente, numa caverna. Deambula pelo heroísmo de João Lázaro, um indivíduo que ousou afrontar a ordem estabelecida, mas que permanece uma espécie de "Che" no imaginário daqueles habitantes, um herói na memória colectiva. Deambula pelo medo que aflige aquelas gentes, quer em relação ao poder da Igreja, quer em relação a qualquer outra espécie de poder que os manterá para sempre naquela caverna. E as deambulações do velho terminam com essa precisa constatação ao anunciar a chegada de um novo deus, caracterizado por ser "Um homem loiro, muito musculado e de riso perverso" (p. 116), um deus que não é o que ele pensa ser possível que exista, "É um Deus terrível e magnificamente americano, senhor" (p. 116).
A afirmação final resume tudo o que foi perdido, dado que o abalo provocado pela morte do pároco não foi aproveitado pela comunidade para se libertar da caverna em que vivia. Não apoiaram os ideários políticos de João Lázaro e o poder foi substituído pelos estrangeiros, os americanos que chegaram às ilhas.
Tudo se passou naquela caverna, houve alguns que saíram pela emigração, mas os que ficaram sabem "como é: a gente habitua-se às vozes, aos silêncios, à sonatina marítima da noite, tanto quanto os pássaros acabam por acostumar-se a viver nas suas gaiolas de cana penduradas das empenas. Se acontece de alguém erradamente os pôr em liberdade, conhecem apenas a tristeza de umas asas sem préstimo" (p. 63-4). E João Lázaro? Acabou no estádio em que os novos deuses "Aos heróis dos pequenos povos vencidos, dão o destino dos tubos de ensaio e das retortas nos seus laboratórios de pesquisa científica, onde praticam toda a sorte de experiências genéticas" (p. 111).
A diegese d'A Divina Miséria é elaborada a partir de várias janelas que colocam em evidência as pequenas histórias narradas. Não sendo uma narrativa de encaixe, é uma narrativa de espelhos em que os diversos episódios concretizam um perfeito mise-en-abîme com a macro-estrutura do texto. Exemplo disso é o problema que o velho tem para resolver com o irmão. Esta última personagem, desaparecida após ter consumado o nubicídio, semeava o terror pela povoação, funcionando como a dimensão cruel do poder perante os habitantes. Todos receavam que algum dia voltasse e, consigo, o clima de medo. O velho acamado, por sua vez, tinha um problema para resolver antes da morte, queria ter a certeza de que Guilherme-José, o irmão, não voltaria àquele lugar, um problema que será substituído pela chegada dos americanos.
Reunindo o que foi escrito, os habitantes do Rozário vivem os três estádios d'A Divina Comédia de Dante Alighieri: o Inferno, aquando da égide do Padre Governo; o Purgatório, a esperada redenção nos acontecimentos que se deram após a morte do Padre Governo; e o Paraíso, com a chegada dos novos deuses, os americanos. Os habitantes do Rozário habitam, assim, constantemente no estádio do Purgatório, uma dimensão dual ou ambígua, porque, não vivendo já no Inferno, vivem num estado intermédio de aspiração ao Paraíso. Este nível reveste-se, igualmente, de dualidade, na medida em que sendo prisão ou caverna é a única liberdade que os mantém. São os entes crentes nas sombras ou, segundo a mitologia judaico-cristã, as almas penadas.
Para finalizar, cabe-nos referir que A Divina Miséria, segundo o próprio autor, é "uma falsa partida para um romance que nunca existiu" (p. 117). O autor tenta esclarecer o leitor no sentido de que juntamente com O Meu Mundo não É Deste Reino e com Gente Feliz com Lágrimas, as três obras poderiam ser uma trilogia, lamentando o facto de tal não ter sucedido: "Assim não aconteceu, e eis portanto a novela. Distinta, enquanto texto e enquanto narrativa, dos seus antecessores? Creio bem que sim. Mas nisso só têm a palavra os seus leitores" (p. 117-8). Em relação à trilogia, compete-nos, ainda, acrescentar que A Divina Miséria é por si inspirada numa trilogia de contos de João de Melo, resgatados para este texto final, publicado em 2009, o que não deixa de ser curioso, tendo em conta que o texto de Dante Alighieri é dividido em três partes – "Inferno", "Purgatório" e "Paraíso" –, que constituem A Divina Comédia que explora alegoricamente o mundo espiritual de então, plasmado na "miséria" espiritual dos habitantes do Rozário.

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