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Animalescos



Sinopse

Um homem na rua a andar sem calças, tenta morder o próprio nariz, engole a palavra que acabou de dizer, depois vomita-a e aí não se percebe o que diz, engole de novo ar para poder falar; o discurso é preparado por esta deglutição imprevista, por este mastigar do ar, por esta forma de andar com a boca aberta, vem o vento Bora, o vento que faz as cabeças loucas, e o vento Bora entra na boca, roda dentro da boca, um redemoinho em terra seca; o homem não diz coisa com coisa, ninguém o entende, batem-lhe com o pau na cabeça, a cabeça abre, começa a sangrar, ele tem o vento Bora na cabeça, está louco mas manda parar o trânsito, interrompe a circulação, manda calar quem fala, manda parar quem corre, manda correr quem está parado, manda matar quem está vivo — estou no meio da minha cabeça e mesmo assim começo a gritar, mesmo no centro e estás perdido, fui atirado da janela e dentro da cabeça nem tudo é claro, utilizo a inteligência para resolver palavras cruzadas, peço que me cortem o cabelo, o crânio nu serve para as palavras cruzadas: espaços vazios que as letras devem completar com um sentido, eis o tabuleiro perfeito: a minha cabeça, a tua cabeça, dois crânios sem um único pêlo servem de tabuleiro, estás de joelhos e pensam que estás a rezar mas estás a fazer de tabuleiro simpático, fazem-te festas, dão‑te comida, agarras com a mão, levantas a comida do chão, levas à boca (...).

«Gonçalo M. Tavares é um escritor diferente de tudo o que lemos até hoje. Ele tem o dom — como Flann O’Brien, Kafka ou Beckett — de mostrar a forma como a lógica pode servir eficazmente tanto a loucura como a razão.»
The New Yorker

 

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